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Sintaxe

Texto:
por: Vânia Maria do Nascimento Duarte

Incoerências gramaticais








Incoerências gramaticais se exprimem por aqueles descuidos linguísticos que às vezes cometemos
Incoerências gramaticais se exprimem por aqueles descuidos linguísticos que às vezes cometemos

Neste texto discutiremos um assunto cuja relevância é indiscutível: incoerências gramaticais. Ora, incoerência diz respeito a algo não condizente a uma dada situação, assim, no que tange aos padrões gramaticais, somos sim, muitas vezes, incoerentes.

Incoerentes por simples descuido, incoerentes por falta de uma familiaridade maior com os pressupostos concebidos pelas regras gramaticais, enfim... Não se trata de procedimento inusitado, tampouco condenável, mas de algo que precisa, aos poucos, ser sanado, contornado, a fim de que possamos adequar nossos discursos de forma plausível aos moldes formais da linguagem, sobretudo quando esta integrar situações específicas de interlocução. Nesse sentido, preparamos para você, caríssimo (a) usuário (a), uma listagem com algumas das incoerências gramaticais mais recorrentes, de modo que você aprimore seus conhecimentos, sempre. Ei-las, portanto:

O pronome “se”: índice de indeterminação do sujeito ou partícula apassivadora?

Alugam-se casas.

Atestamos que o pronome “se” acompanha um verbo transitivo direto (alugam), cujo complemento (casas) se apresenta sem preposição.

Pois bem, transformemos esse enunciado, o qual se encontra na voz passiva sintética, para a voz passiva analítica:

Casas são alugadas.

Temos que o verbo (são) concordou perfeitamente com o sujeito (casas). Portanto, em se tratando desse caso, a flexão ou não se faz necessária. Caso esse em que o “se” atua como partícula apassivadora.

Vejamos outro exemplo:

Precisa-se de costureiras.
Vive-se tranquilamente aqui.

Temos agora dois verbos: “precisa”, classificado como transitivo indireto, cujo complemento (objeto indireto) é representado por “costureiras”; e o outro, “vive”, classificado como intransitivo, que possui sentido completo.

Dessa forma, torna-se imprescindível que, ao fazer tal análise, você perceba que se trata deum índice de indeterminação do sujeito. 

Uso dos verbos “haver” e “fazer” na qualidade de impessoais:

Há pessoas estranhas aqui.
Não o vejo há cinco anos.

No primeiro enunciado, o verbo “haver” denota o sentido de “existir”. Já no segundo deles, esse mesmo verbo retrata o sentido de tempo passado, decorrido.

Faz anos que não o encontro.
Fazia dois anos que viajava com a família.

Inferimos que em ambos os casos se trata de um verbo cujo sentido se mantém voltado para tempo decorrido, passado.

Então, não se esqueça de que, em se tratando dos casos que ora acabamos de conferir, o verbo “haver” e o verbo “fazer” se classificam como impessoais, permanecendo na terceira pessoa do singular, sempre.

Colocação pronominal

Tal ocorrência, não menos importante, costuma ser alvo de muitas dúvidas por parte dos usuários, pois geralmente estes não sabem como atribuir ao pronome a colocação adequada. Veja alguns exemplos:

Apresentarei-o aos convidados, assim que chegar.

Precisamos estar atentos ao fato de que o verbo “apresentar” se encontra demarcado no futuro do presente – fato que, gramaticalmente dizendo, requer o uso da mesóclise. Dessa forma, retificando o enunciado, temos:

Apresentá-lo-ei aos convidados, assim que chegar.

No entanto, há circunstâncias em que o verbo pode se encontrar tanto no futuro do presente quanto no futuro do pretérito, mas antes dele há a presença de um dado elemento que requer o uso da próclise. Perceba o que ocorre nesse mesmo exemplo:

Não o apresentarei aos convidados.

O elemento aqui se encontra demarcado por um adjunto adverbial de negação (não), o que justifica a posição do pronome (próclise).

É sempre bom se atentar a tais detalhes.

 Emprego indevido do pronome “lhe”

Partindo do princípio de que o pronome “lhe”, atuando como complemento verbal, completa o sentido de verbos transitivos indiretos, fique de olho a casos semelhantes a estes:

Não lhe amo.
Eu lhe vi ontem.

Ambos os verbos se classificam como transitivos diretos, por isso, o correto seria utilizar como complemento o pronome “o”, atuando como objeto direto, assim demarcado:

Não o amo.
Eu o vi ontem.

Concordância do verbo anteposto ao sujeito

Em virtude de que, normalmente, a ordem direta tende a prevalecer, representada pela sequência do sujeito + predicado..., temos uma concepção errônea de que quando a situação se inverte, a concordância irá se alterar em algum aspecto. Analisemos alguns casos:

Existempara ela motivos suficientes.

Foram eles os convocados.

Uso indevido da vírgula

Um dos pressupostos inerentes ao uso da vírgula é que o sujeito não pode ser separado do predicado por ela, ainda que distantes um do outro. Veja:

Todos os alunos que demonstraram baixo desempenho, deverão receber acompanhamento. Retificando, temos:

Todos os alunos que demonstraram baixo desempenho deverão receber acompanhamento.

A correta utilização dos verbos “ter” e “haver”

De forma recorrente, o uso do verbo “ter”, nas situações formais de interlocução, torna-se cada vez mais evidente – fato que configura uma inadequação linguística. Outro aspecto, não menos importante, é atribuir a esse verbo a flexão desnecessária. Vejamos:

Tinham convidados insatisfeitos se manifestando.

Ora, o termo “convidados” não atua como sujeito da oração, mas sim como complemento (objeto direto). Portanto, o verbo deve, necessariamente, permanecer na terceira pessoa do singular. Assim, “tinha convidados insatisfeitos se manifestando” é a concordância mais adequada, em se tratando da linguagem informal. Em casos relacionados a situações formais, opte pelo emprego do verbo “haver”, também usado na terceira pessoa do singular – dada a condição de ele se classificar como impessoal:

Havia convidados insatisfeitos se manifestando.