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Gêneros Literários

Texto:
por: Vânia Maria do Nascimento Duarte

A fábula e suas características discursivas








Antes de iniciarmos nossa discussão acerca do assunto em referência, analisemos um exemplo:


O galo que logrou a raposa


Um velho galo matreiro, percebendo a aproximação da raposa, empoleirou-se numa árvore. A raposa, desapontada, murmurou: “… Deixe estar, seu malandro, que já te curo!…” E em voz alta:
– Amigo, venho contar uma grande novidade: acabou-se a guerra entre os animais. Lobo e cordeiro, gavião e pinto, onça e veado, raposa e galinhas, todos os bichos andam agora aos beijos, como namorados. Desça desse poleiro e venha receber o meu abraço de paz e amor.
– Muito bem! – exclamou o galo. Não imagina como tal notícia me alegra! Que beleza vai ficar o mundo, limpo de guerras, crueldades e traições! Vou já descer para abraçar a amiga raposa, mas… como lá vêm vindo três cachorros, acho bom esperá-los, para que eles também tomem parte na confraternização.
Ao ouvir falar em cachorros Dona Raposa não quis saber de histórias, e tratou de por-se a fresco, dizendo:
– Infelizmente, amigo Có-ri-có-có, tenho pressa e não posso esperar pelos amigos cães. Fica para outra vez a festa, sim? Até logo.
E raspou-se.
Contra esperteza, esperteza e meia.
(Monteiro Lobato, do livro Fábulas e Histórias diversas)

Nossa aguçada percepção aponta para uma característica que difere o texto em questão dos demais que usualmente conhecemos – a presença de animais protagonizando a história. Eis aí a característica marcante da fábula, pois, assim como o romance, a novela, o conto, a parábola e o apólogo, pertence ao gênero literário narrativo.

Historicamente, a fábula tem origens um tanto quanto remotas. Cultuada em solo oriental, pertenceu aos assírios e babilônios. Entretanto, foi Esopo, um escravo grego que viveu no século VI a.C., que consagrou o gênero como tal. Ele, mediante suas invenções, criava histórias nas quais cada animal era categorizado de acordo com seu perfil. Por exemplo: o leão representava a força; a raposa representava a astúcia; a formiga caracterizava o trabalho (há uma famosa fábula cujo título é A cigarra e as formigas).

Esopo, utilizando-se do diálogo estabelecido entre os animais, tinha por objetivo transmitir sabedoria de caráter moral ao homem, gerando exemplos para este. Fato que podemos constatar sempre ao final de cada texto, uma vez dotado de um fundo moral.

Tais pormenores nos  levam a concluir que a fábula se caracteriza como um gênero narrativo popular que tem por finalidade discursiva retratar aspectos inerentes à conduta humana. Quanto às características que a faz pertencer ao gênero narrativo, atribui-se à existência de personagens, à ocorrência em um tempo e espaço, embora reduzidos, e finaliza-se com um ensinamento moral, levando o leitor a uma reflexão.