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Estilos de Época

Texto:
por: Vânia Maria do Nascimento Duarte

O Arcadismo no Brasil











Fachadas da cidade de Ouro Preto, antiga Vila Rica – berço do Arcadismo brasileiro


Alguns aspectos de relevante importância parecem emergir quando nos propomos a conhecer os fatores que demarcaram não só os estilos de época, mas todos os fatos relacionados ao campo da Literatura. Para tanto, em se tratando do movimento árcade, há um importante detalhe ao qual nos devemos ater – o fato de ele representar uma retomada aos modelos clássicos, cujos ideais se voltam para a representação de uma arte baseada na racionalidade, razão pela qual é também conhecido como Neoclassicismo. Por isso, os escritores árcades, inspirados na Arcádia grega – região mitológica habitada por pastores e deuses – fundaram várias academias literárias as quais se denominavam arcádias.

Entretanto, ao nos referirmos ao panorama brasileiro, podemos dizer que aqui a situação se revelou de modo diferente, uma vez que, ao invés destas, a região que abrigou tais representantes foi Vila Rica (atualmente representada pela cidade de Ouro Preto).

Outro detalhe de significativa importância é que em se tratando de arte, toda e qualquer manifestação que a representa possui uma estreita ligação com fatores advindos do contexto social. Assim, há que se ressaltar que o período em questão foi nitidamente revelado por questões de ordem econômica e social. Em termos econômicos, com o declínio da cana de açúcar, cultuada no nordeste brasileiro, ascendia assim a exploração das minas de ouro, que fez de Vila Rica não só o berço cultural do Arcadismo, mas também o polo econômico daquela época. Dessa forma, as pessoas que ali viviam, em especial os fazendeiros e donos de minas, sentiam-se indignados mediante as altas taxas de juros impostas pelo rei de Portugal, visto que a relação de dependência ainda se fazia presente. Com isso, em repúdio a tal situação, um grupo de intelectuais, recém-chegados de Coimbra (lugar onde concluíam seus estudos superiores) e norteados pelas ideias iluministas amplamente difundidas no continente europeu, ansiavam cada vez mais pela tão sonhada independência. Imbuídos nesse propósito, José da Silva Xavier, mais conhecido como Tiradentes, em companhia dos poetas Cláudio Manuel da Costa, Tomás Antônio Gonzaga, Inácio de Alvarenga, entre outras importantes figuras da elite mineira, lideraram um movimento histórico de fundamental importância na história do país – a chamada Inconfidência Mineira (1789).

Entretanto, tudo não passou de uma tentativa frustrada, pois Joaquim Silvério dos Reis , no intuito de livrar sua dívida com a Coroa portuguesa, relatou todas as intenções ao rei. Dessa forma, todos os participantes foram presos e condenados à morte por enforcamento. Entretanto, apenas um deles, Tiradentes, resolveu assumir a culpa do grupo sozinho, obtendo como punição a própria morte.  Os outros participantes não ficaram à espreita, pois alguns foram enviados para o Rio de janeiro (então capital), e outros enviados para a África, condenados ao cárcere absoluto.


Tiradentes, considerado o líder do movimento e, por tal razão, o mártir da independência.

Mediante os expressivos pressupostos vale mencionar que o Arcadismo brasileiro contou com a participação de importantes figuras que, de forma esplendorosa, se revelaram no cenário artístico nacional. Ente eles: Cláudio Manoel da Costa (1729-1789), autor de “Obras poéticas” – marco introdutório do movimento – e do poema épico “Vila Rica” (concebido pelo seu alto valor, muito mais em termos históricos que literários), evidenciou a significativa influência exercida por Virgílio, Camões e Petrarca – remontando mais uma vez os moldes greco-latinos; Tomás Antônio Gonzaga (1744-1810), o qual se destacou tanto na poesia lírica (evidenciada por “Marília de Dirceu”) quanto na sátira (representada por “Cartas Chilenas”); Basílio da Gama (1740-1795) e Frei Santa Rita Durão (1722-1784), sendo este autor de “Caramuru” e aquele autor de o “Uraguai” – ambos de teor épico.

Exaltados assim, partamos agora rumo ao conhecimento das características que tanto nortearam suas criações, expressas por:

* Incorporação da figura indígena – Com base nas ideias iluministas do filósofo Rousseau, o índio, convivendo em meio aos benefícios proporcionados pela natureza, representava um ser dotado de virtudes, uma vez abnegado dos preceitos ditados pela sociedade.

* Apego aos valores da terra – Retomando o gosto pelos moldes clássicos, todas as criações árcades foram demarcadas pela simplicidade (como forma de aludir à expressão latina Inutilia Truncat). Sendo assim, optaram pela vida campesina, bucólica, uma vez que tal preceito estava totalmente envolto pelo extremo sentimento nativista.

* Sátira política – Característica esta evidenciada em “Cartas Chilenas”, cujo intento era criticar os governantes da época, dando enfoque especial à verdadeira submissão do país, vivendo ainda em plena condição de colônia.