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Geração de 1930

Texto:
por: Vânia Maria do Nascimento Duarte

Carlos Drummond de Andrade - trajetória artística e análise temática









Com 56 anos de atividade poética, Drummond é o maior poeta do séc. XX

No intento de efetivarmos nossos conhecimentos acerca da biografia, do desenrolar da carreira artística, das manifestações ideológicas, bem como de uma análise sobre como elas se materializaram nas criações em si, iremos nos ater ao estudo daquele considerado o maior poeta brasileiro do século XX – Carlos Drummond de Andrade.

Carlos Drummond de Andrade nasceu em 1902, em Itabira (Minas Gerais). Cursou suas primeiras fases escolares em sua cidade natal. Seguindo seus estudos optou por formar-se em Farmácia, na capital mineira. Em 1928 começou sua carreira atuando como funcionário público, tornando-se chefe do gabinete do Ministério da Educação e, posteriormente, como codiretor do jornal Tribuna Popular.

Notadamente, sua carreira literária ganhou força de expressão a partir dos anos 50, mais precisamente em 1962, quando se aposentou. Após uma vasta e significativa produção, veio a falecer em 1987, no Rio de Janeiro.

Poeta por vocação, sua obra se divide em três momentos, os quais serão analisados de modo específico para que possamos compreender a magnitude de sua habilidade artística. No primeiro, o poeta observa o mundo à sua volta e passa a registrá-lo de um modo não convencional, assemelhando-se a um ser que se vê diferentemente dos outros, deslocado por si só. Analisemos, pois:

Poema de sete faces

Quando nasci, um anjo torto
desses que vivem na sombra
disse: Vai, Carlos! ser gauche na vida.

As casas espiam os homens
que correm atrás de mulheres.
A tarde talvez fosse azul,
não houvesse tantos desejos.

O bonde passa cheio de pernas:
pernas brancas pretas amarelas.
Para que tanta perna, meu Deus, pergunta meu coração.
Porém meus olhos
não perguntam nada.
[...]

Meu Deus, por que me abandonaste
se sabias que eu não era Deus
se sabias que eu era fraco.
[...]

Deparamo-nos com alguns aspectos formais que se divergem dos padrões convencionais, por exemplo: os versos são destituídos de rimas; como também, de forma notória, identificamos as características acima mencionadas, que se fazem presente nos versos, nos quais observamos um certo pessimismo:
Quando nasci, um anjo torto
desses que vivem na sombra
disse: Vai, Carlos! ser gauche na vida.
[...]

Meu Deus, por que me abandonaste
se sabias que eu não era Deus
se sabias que eu era fraco.

Temos uma segunda face de sua poesia extremamente demarcada pelos sentimentos oriundos do período concernente à Segunda Guerra Mundial, em que tamanhas inquietações se fizeram prevalecer, sobretudo pela busca da própria identidade em razão dos acontecimentos que marcaram a história da humanidade. Entretanto, o poeta faz disso sua razão de viver, apostando no desejo de transformar o mundo em dias melhores e, consequentemente, visando a uma sociedade mais justa e igualitária. Como bem podemos constatar, principalmente pela última estrofe, em:

Poema da purificação

Depois de tantos combates
o anjo bom matou o anjo mau
e jogou seu corpo no rio.


As água ficaram tintas
de um sangue que não descorava
e os peixes todos morreram.


Mas uma luz que ninguém soube
dizer de onde tinha vindo
apareceu para clarear o mundo,
e outro anjo pensou a ferida
do anjo batalhador.

Partiremos agora para uma terceira vertente que norteou sua produção, na qual as inquietações decorrentes dos fatos sociais se voltaram para os questionamentos em relação à própria poesia, fazendo da palavra seu objeto de estudo. Conferida por:

Procura da Poesia

Não faças versos sobre acontecimentos.
Não há criação nem morte perante a poesia.
Diante dela, a vida é um sol estático,
não aquece nem ilumina.
As afinidades, os aniversários, os incidentes pessoais não contam.
Não faças poesia com o corpo,
esse excelente, completo e confortável corpo, tão infenso à efusão lírica.
[...]

Convive com teus poemas, antes de escrevê-los.
Tem paciência se obscuros. Calma, se te provocam.
Espera que cada um se realize e consume
com seu poder de palavra
e seu poder de silêncio.
Não forces o poema a desprender-se do limbo.
Não colhas no chão o poema que se perdeu.
Não adules o poema. Aceita-o
como ele aceitará sua forma definitiva e concentrada
no espaço.
[...]
Carlos Drummond de Andrade