Geração de 1930

Por Warley Souza

A geração de 1930, segunda fase do modernismo brasileiro, compreende o período de 1930 a 1945. Foi influenciada, portanto, por um contexto histórico marcado por conflitos sociais e políticos, como a Revolução de 1930 e a Revolução Constitucionalista de 1932 (durante a Era Vargas), além da Segunda Guerra Mundial. Essa fase ficou caracterizada pela reflexão dos escritores acerca de fatos contemporâneos, por obras comprometidas com o realismo das questões sociopolíticas e pelo conflito espiritual de alguns de seus autores.

Na poesia, que tem nomes como Carlos Drummond de Andrade, Cecília Meireles, Vinicius de Moraes, Murilo Mendes e Jorge de Lima, predomina a liberdade formal. Já a prosa, escrita por romancistas como Graciliano Ramos, Jorge Amado, José Lins do Rego, Erico Verissimo e Rachel de Queiroz, é marcada por engajamento político e temática social de cunho regionalista.

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Contexto histórico da segunda geração modernista

Em 1929, com a quebra da bolsa de Nova Iorque, o preço do café brasileiro sofreu forte queda no mercado exterior. No ano seguinte, a Revolução de 1930 levou à deposição do presidente Washington Luís (1869-1957) e à ascensão de Getúlio Vargas (1882-1954), a princípio, em um governo provisório. Era o fim da política do café com leite, comandada pelos barões do café de São Paulo e pelos pecuaristas mineiros. Descontentes com a situação, os paulistas, em 1932, deflagraram a Revolução Constitucionalista e foram derrotados. Então, em 1934, com a promulgação da nova Constituição, Vargas manteve-se no poder.

A esquerda brasileira, no entanto, não se mostrou satisfeita com tal situação. Então, o presidente Vargas, para combater a oposição, conseguiu aprovar a Lei de Segurança Nacional (1935) e passou a perseguir os comunistas e também os artistas. Nesse contexto, apareceram nomes hoje importantes na história do comunismo brasileiro, como Luís Carlos Prestes (1898-1990) e a alemã Olga Benário (1908-1942). Mas Getúlio Vargas se fortaleceu ainda mais e, em 1937, deu um golpe de Estado e instituiu o Estado Novo, regime autoritário de cunho fascista.

Ruínas de Nagasaki, Japão, após lançamento da bomba atômica em 1945.
Ruínas de Nagasaki, Japão, após lançamento da bomba atômica em 1945.

Na Europa, o nacionalismo extremista permitiu o fortalecimento do fascismo e do nazismo, o que acabou levando à Segunda Guerra Mundial (1939-1945), que teve fim com o lançamento das bombas atômicas, em agosto de 1945, em Hiroshima e Nagasaki. Portanto, foi nesse contexto de extremismo, com torturas e assassinatos, além de perseguição e extermínio de judeus, homossexuais e outros grupos, que a segunda geração modernista no Brasil produziu as suas obras.

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Características da segunda geração modernista

A segunda fase do modernismo durou de 1930 a 1945 e apresentou as seguintes características:

  • Foco no mundo contemporâneo;

  • Reflexão sobre o sentido de existir;

  • Conflito espiritual: fé versus desilusão;

  • Textos focados no contexto sociopolítico.

  • Liberdade no uso da linguagem;

  • Liberdade formal;

  • Perspectiva realista;

  • Presença de “cor local” na prosa.

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O que foi a geração de 1930?

A geração de 1930 é composta por escritores da prosa modernista da segunda geração. Preocupados com o contexto sociopolítico brasileiro – alguns deles, inclusive, foram perseguidos pela ditadura de Getúlio Vargas –, esses escritores utilizaram os seus livros como veículo de reflexão política e combate ao regime vigente. Portanto, as obras desse período lançam um olhar crítico e realista sobre o Brasil da Era Vargas.

O romance de 1930 faz uma retomada do regionalismo romântico; porém, a partir de uma perspectiva realista, e não mais idealizadora. Nesse neorrealismo, além de rejeitar a idealização romântica, os autores também deixaram de lado a impessoalidade realista do século XIX. Os romances desse período resultaram de um engajamento político; portanto, trazem a visão pessoal do autor ou autora sobre a realidade brasileira.

Por ser regionalista, o enredo do romance é construído a partir da valorização do espaço, isto é, personagem e espaço tornam-se uma coisa só, pois o lugar em que vive o personagem influencia diretamente o seu comportamento. Nessa perspectiva, há uma retomada do determinismo naturalista; porém, sem o peso da inevitabilidade do destino. Para a geração de 1930, se o meio é a causa dos problemas sociais, isso se resolve ao transformar o meio.

A seca nordestina foi uma das temáticas regionais de autores da geração de 1930.
A seca nordestina foi uma das temáticas regionais de autores da geração de 1930.

As obras desse período trazem um enredo dinâmico, além de uma linguagem simples, o que acabou seduzindo os leitores e propiciando sucesso de vendas para alguns autores. Essas características, contudo, não são aleatórias. O romance de 1930, dado o seu caráter ideológico, é construído, intencionalmente, para ser sedutor e de fácil entendimento, de forma a alcançar o maior número de leitores possível.

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Principais autores da segunda fase do modernismo brasileiro

Prosa de 1930

  • Graciliano Ramos (1892-1953): Vidas secas (1938) e Memórias do cárcere (1953).

  • José Lins do Rego (1901-1957): Menino de engenho (1932).

  • Rachel de Queiroz (1910-2003): O quinze (1930).

  • Jorge Amado (1912-2001): Capitães da areia (1937) e O cavaleiro da esperança (1942).

  • Erico Verissimo (1905-1975): O tempo e o vento (1949-1961).

Poesia de 1930

  • Carlos Drummond de Andrade (1902-1987): Sentimento do mundo (1940) e A rosa do povo (1945).

  • Cecília Meireles (1901-1964): Romanceiro da Inconfidência (1953).

  • Vinicius de Moraes (1913-1980): Novos poemas (1938).

  • Murilo Mendes (1901-1975): O visionário (1941).

  • Jorge de Lima (1893-1953): Poemas negros (1947).

Resumo da segunda fase do modernismo brasileiro

- Contexto histórico:

  • Quebra da bolsa de Nova Iorque;

  • Revolução de 1930;

  • Revolução Constitucionalista de 1932;

  • Era Vargas (1930-1945);

  • Segunda Guerra Mundial (1939-1945).

- Características:

  • Foco no mundo contemporâneo;

  • Reflexão sobre o sentido de existir;

  • Conflito espiritual;

  • Temática sociopolítica;

  • Liberdade formal;

  • Perspectiva realista.

- Principais autores:

  • Graciliano Ramos;

  • José Lins do Rego;

  • Rachel de Queiroz;

  • Jorge Amado;

  • Erico Verissimo;

  • Carlos Drummond de Andrade;

  • Cecília Meireles;

  • Vinicius de Moraes;

  • Murilo Mendes;

  • Jorge de Lima.

Exercícios resolvidos

Questão 1- (Enem)

No poema “Procura da poesia”, Carlos Drummond de Andrade expressa a concepção estética de se fazer com palavras o que o escultor Michelângelo fazia com mármore. O fragmento a seguir exemplifica essa afirmação.

“[...]
Penetra surdamente no reino das palavras.
Lá estão os poemas que esperam ser escritos.
[...]
Chega mais perto e contempla as palavras.
Cada uma
tem mil faces secretas sob a face neutra
e te pergunta, sem interesse pela resposta,
pobre ou terrível, que lhe deres:
trouxeste a chave?”

Carlos Drummond de Andrade. A rosa do povo. Rio de Janeiro: Record, 1997, p. 13-14.

Esse fragmento poético ilustra o seguinte tema constante entre autores modernistas:

a) a nostalgia do passado colonialista revisitado.

b) a preocupação com o engajamento político e social da literatura.

c) o trabalho quase artesanal com as palavras, despertando sentidos novos.

d) a produção de sentidos herméticos na busca da perfeição poética.

e) a contemplação da natureza brasileira na perspectiva ufanista da pátria.

Resolução

Alternativa C.

Tomando como referência o enunciado da questão, que diz que “Carlos Drummond de Andrade expressa a concepção estética de se fazer com palavras o que o escultor Michelângelo fazia com mármore”, somos direcionados para a interpretação expressa na alternativa “c”, que fala do “trabalho quase artesanal com as palavras”, já que o ato da escrita é comparado ao da escultura. Além disso, esse “trabalho quase artesanal” despertaria sentidos novos, como é afirmado nestes versos do poema: “Chega mais perto e contempla as palavras./ Cada uma/ tem mil faces secretas sob a face neutra”.

Questão 2 - (Enem)

Erico Verissimo relata, em suas memórias, um episódio da adolescência que teve influência significativa em sua carreira de escritor.

“Lembro-me de que certa noite (eu teria uns quatorze anos, quando muito) encarregaram-me de segurar uma lâmpada elétrica à cabeceira da mesa de operações, enquanto um médico fazia os primeiros curativos num pobre-diabo que soldados da Polícia Municipal haviam ‘carneado’ [...] Apesar do horror e da náusea, continuei firme onde estava, talvez pensando assim: se esse caboclo pode aguentar tudo isso sem gemer, por que não hei de poder ficar segurando esta lâmpada para ajudar o doutor a costurar esses talhos e salvar essa vida? [...] Desde que, adulto, comecei a escrever romances, tem-me animado até hoje a ideia de que o menos que o escritor pode fazer, numa época de atrocidades e injustiças como a nossa, é acender a sua lâmpada, fazer luz sobre a realidade de seu mundo, evitando que sobre ele caia a escuridão, propícia aos ladrões, aos assassinos e aos tiranos. Sim, segurar a lâmpada, a despeito da náusea e do horror. Se não tivermos uma lâmpada elétrica, acendamos o nosso toco de vela ou, em último caso, risquemos fósforos repetidamente, como um sinal de que não desertamos nosso posto.”

VERISSIMO, Erico. Solo de clarineta. Porto Alegre: Editora Globo, 1978. tomo I.

Nesse texto, por meio da metáfora da lâmpada que ilumina a escuridão, Erico Verissimo define como uma das funções do escritor e, por extensão, da literatura,

a) criar a fantasia.

b) permitir o sonho.

c) denunciar o real.

d) criar o belo.

e) fugir da náusea.

Resolução

Alternativa C.

Em consonância com as características da geração de 1930 e com o texto, o qual diz que “[...], tem-me animado até hoje a ideia de que o menos que o escritor pode fazer, numa época de atrocidades e injustiças como a nossa, é acender a sua lâmpada, fazer luz sobre a realidade de seu mundo, [...]”, uma das funções do escritor e da literatura é denunciar o real.

Questão 3 - (Enem)

Texto I

Logo depois transferiram para o trapiche o depósito dos objetos que o trabalho do dia lhes proporcionava. Estranhas coisas entraram então para o trapiche. Não mais estranhas, porém, que aqueles meninos, moleques de todas as cores e de idades as mais variadas, desde os nove aos dezesseis anos, que à noite se estendiam pelo assoalho e por debaixo da ponte e dormiam, indiferentes ao vento que circundava o casarão uivando, indiferentes à chuva que muitas vezes os lavava, mas com os olhos puxados para as luzes dos navios, com os ouvidos presos às canções que vinham das embarcações...

AMADO, J. Capitães da areia. São Paulo: Companhia das Letras, 2008 (fragmento).

Texto II

À margem esquerda do rio Belém, nos fundos do mercado de peixe, ergue-se o velho ingazeiro — ali os bêbados são felizes. Curitiba os considera animais sagrados, provê as suas necessidades de cachaça e pirão. No trivial contentavam-se com as sobras do mercado.

TREVISAN, D. 35 noites de paixão: contos escolhidos. Rio de Janeiro: BestBolso, 2009 (fragmento).

Sob diferentes perspectivas, os fragmentos citados são exemplos de uma abordagem literária recorrente na literatura brasileira do século XX. Em ambos os textos,

a) a linguagem afetiva aproxima os narradores dos personagens marginalizados.

b) a ironia marca o distanciamento dos narradores em relação aos personagens.

c) o detalhamento do cotidiano dos personagens revela a sua origem social.

d) o espaço onde vivem os personagens é uma das marcas de sua exclusão.

e) a crítica à indiferença da sociedade pelos marginalizados é direta.

Resolução

Alternativa D.

Em ambos os textos, o espaço onde vivem os personagens é uma das marcas de sua exclusão. No Texto I, o trapiche; no Texto II, os fundos do mercado de peixe. Portanto, o meio em que vivem é condizente com sua condição social.  

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