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Estilos de Época

Texto:
por: Vânia Maria do Nascimento Duarte

Castro Alves e sua poesia condoreira








Castro Alves – considerado o poeta dos escravos

Enfatizar nossos conhecimentos sobre o poeta em referência faz com que nos situemos à fase conhecida como terceira geração romântica, sendo ele um dos principais artistas que a representaram. Concebemo-la como uma fase que já apresentava alguns resquícios da estética realista, cujo tema voltava-se para a estreita relação entre ser x sociedade. E foi exatamente sob este prisma que Castro Alves mais se evidenciou, posto o seu notável engajamento em prol das lutas sociais.

Consideramos a criação artística de Castro Alves delineada por duas vertentes: a lírico-amorosa e a social que, já antes ressaltada, foi a de maior destaque. Ao nos referirmos acerca deste lirismo, torna-se digno de nota o fato de que tal concepção, ora voltada para o amor, se divergia daquela preconizada pelos representantes da segunda geração, na figura de Álvares de Azevedo, Casimiro de Abreu, dentre outros. A título de análise, observemos:

O "adeus" de Teresa

A vez primeira que eu fitei Teresa,
Como as plantas que arrasta a correnteza,
A valsa nos levou nos giros seus
E amamos juntos E depois na sala
"Adeus" eu disse-lhe a tremer co'a fala


E ela, corando, murmurou-me: "adeus!"


Uma noite entreabriu-se um reposteiro. . .
E da alcova saía um cavaleiro
Inda beijando uma mulher sem véus
Era eu Era a pálida Teresa!
"Adeus" lhe disse conservando-a presa


E ela entre beijos murmurou-me: "adeus!"


Passaram tempos sec'los de delírio
Prazeres divinais gozos do Empíreo
... Mas um dia volvi aos lares meus.
Partindo eu disse - "Voltarei! descansa!. . . "
Ela, chorando mais que uma criança,


Ela em soluços murmurou-me: "adeus!"


Quando voltei era o palácio em festa!
E a voz d'Ela e de um homem lá na orquesta
Preenchiam de amor o azul dos céus.
Entrei! Ela me olhou branca surpresa!
Foi a última vez que eu vi Teresa!


E ela arquejando murmurou-me: "adeus!"
Castro Alves

Evidencia-se de forma contundente a postura ideológica norteada pela temática do amor, visto que a figura feminina para Castro Alves não é mais concebida somente no plano dos sonhos. Para tanto, o amor se torna consumado, no qual os envolvidos participam ativamente do relacionamento amoroso, como podemos conferir por meio dos seguintes excertos poéticos:
[...] A valsa nos levou nos giros seus
E amamos juntos E depois na sala
"Adeus" eu disse-lhe a tremer co'a fala


E ela, corando, murmurou-me: "adeus."

Uma noite entreabriu-se um reposteiro. . .
E da alcova saía um cavaleiro
Inda beijando uma mulher sem véus
Era eu Era a pálida Teresa!
"Adeus" lhe disse conservando-a presa
[...]

A vocação do poeta desvelava as mazelas impregnadas nas camadas sociais, sobretudo a situação opressora pela qual perpassavam as senzalas brasileiras, vivendo em meio aos ditames e aos castigos dos seus senhores. Fazia-se necessário que alguém clamasse pelo grito de liberdade, no intento de despertar a consciência por um mundo mais igualitário e mais justo. Tais objetivos materializaram-se em várias obras, aqui representadas por:

Navio negreiro
I

'Stamos em pleno mar... Doudo no espaço
Brinca o luar — dourada borboleta;
E as vagas após ele correm... cansam
Como turba de infantes inquieta.

'Stamos em pleno mar... Do firmamento
Os astros saltam como espumas de ouro...
O mar em troca acende as ardentias,
— Constelações do líquido tesouro...

"Stamos em pleno mar... Dois infinitos
Ali se estreitam num abraço insano,
Azuis, dourados, plácidos, sublimes...
Qual dos dous é o céu? qual o oceano?...

'Stamos em pleno mar. . . Abrindo as velas
Ao quente arfar das virações marinhas,
Veleiro brigue corre à flor dos mares,
Como roçam na vaga as andorinhas...

Donde vem? onde vai? Das naus errantes
Quem sabe o rumo se é tão grande o espaço?
Neste saara os corcéis o pó levantam,
Galopam, voam, mas não deixam traço.

Bem feliz quem ali pode nest'hora
Sentir deste painel a majestade!
Embaixo — o mar em cima — o firmamento...
E no mar e no céu — a imensidade!

Oh! que doce harmonia traz-me a brisa!
Que música suave ao longe soa!
Meu Deus! como é sublime um canto ardente
Pelas vagas sem fim boiando à toa!

Homens do mar! ó rudes marinheiros,
Tostados pelo sol dos quatro mundos!
Crianças que a procela acalentara
No berço destes pélagos profundos!

Esperai! esperai! deixai que eu beba
Esta selvagem, livre poesia
Orquestra — é o mar, que ruge pela proa,
E o vento, que nas cordas assobia...

Por que foges assim, barco ligeiro?
Por que foges do pávido poeta?
Oh! quem me dera acompanhar-te a esteira
Que semelha no mar — doudo cometa!

Albatroz! Albatroz! águia do oceano,
Tu que dormes das nuvens entre as gazas,
Sacode as penas, Leviathan do espaço,
Albatroz! Albatroz! dá-me estas asas.
Castro Alves

A temática proferida pelo autor está permeada por um sentimento de extrema revolta e indignação diante de um fato social marcante na nossa História – o tráfico de escravos oriundos da África, trazidos em navios negreiros desprovidos de condições para tal, ocasionando na morte de centenas deles, e aqueles que sobreviviam eram vendidos e tratados de forma crudelíssima.

Outro aspecto que nos chama a atenção é o fato de a poesia do referido autor receber a denominação de “condoreira”, grandiloquente por excelência e comprometida com as causas abolicionistas e republicanas. O termo provém da liberdade atribuída a alguns pássaros, ora representados pelo condor, falcão, águia e o albatroz. Evidenciada literalmente em:
Albatroz! Albatroz! águia do oceano,
Tu que dormes das nuvens entre as gazas,
Sacode as penas, Leviathan do espaço,
Albatroz! Albatroz! dá-me estas asas.