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Verbos defectivos

Verbos defectivos não apresentam todas as formas de conjugação: faltam pessoas, tempos ou modos verbais uma vez que certas flexões não são usadas ou não fazem sentido.

Por Guilherme Viana

Esquema ilustrativo com o conceito e exemplos de verbos defectivos.
Verbos defectivos são verbos incompletos na conjugação, ou seja, com lacunas em algumas pessoas, tempos ou modos verbais.
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Verbos defectivos são aqueles que não apresentam todas as formas de conjugação. Em outras palavras, na conjugação desses verbos, não existem formas conjugadas em certas pessoas, tempos ou modos, por não serem usadas ou não fazerem sentido lógico no uso da língua.

Leia também: Verbos anômalos — aqueles que sofrem alteração em seus radicais ao serem conjugados

Resumo sobre verbos defectivos

  • Verbos defectivos são verbos incompletos na conjugação, ou seja, com lacunas em algumas pessoas, tempos ou modos verbais.
  • A defectividade pode ocorrer por motivo formal, quando certas flexões geram estranhamento ou ambiguidade.
  • Também pode ocorrer por motivo semântico, quando o sentido literal não se aplica a todas as pessoas verbais.
  • Na prática, esses verbos aparecem conjugados apenas nas formas efetivamente usadas, em geral na 3ª pessoa.
  • Podem ser agrupados como impessoais e unipessoais, conforme o tipo de restrição.

Lista de verbos defectivos

Veja alguns verbos que não têm todas as formas conjugadas (por faltar conjugação em pessoa, tempo ou modo verbal):

abolir

combalir

fulgir

adequar

delinquir

garoar

amanhecer

demolir

gear

anoitecer

entardecer

imergir

antiquar

esbaforir

nevar

aturdir

esculpir

precaver-se

banir

exaurir

reaver

bramir

explodir

retorquir

brandir

extorquir

ruir

carpir

falir

trovejar

chover

florir

ungir

colorir

fremir

ventar

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Conjugação dos verbos defectivos

A conjugação desses verbos ocorre apenas em algumas pessoas (em geral, na 3ª pessoa), tempos ou modos verbais. Isso pode ocorrer por razões formais (de forma) ou semânticas (de sentido).

  • Motivação formal

Alguns verbos são defectivos quando a forma da palavra conjugada geraria estranhamento ou ambiguidade. Por exemplo, o verbo “falir” tem apenas duas formas conjugadas no tempo presente do modo indicativo. Observe:

 Falir

singular

1ª pessoa

-

2ª pessoa

-

3ª pessoa

-

plural

1ª pessoa

(nós) falimos

2ª pessoa

(vós) falis

3ª pessoa

-

No caso do verbo “falir”, no tempo presente do modo indicativo, são conjugadas apenas as formas da 1ª e 2ª pessoa do plural, pois as demais pessoas gerariam formas ambíguas que soariam estranhas naquele contexto, como “falo”, “fale” ou “falem”, que não são aceitas para o verbo “falir”.

  • Motivação semântica

Outros verbos são defectivos por terem um sentido que não pode ser aplicado de forma lógica a todas as pessoas, tempos ou modos verbais. Observe:

Relinchar

singular

1ª pessoa

-

2ª pessoa

-

3ª pessoa

(ele/ela) relincha

plural

1ª pessoa

-

2ª pessoa

-

3ª pessoa

(eles/elas) relincham 

O verbo “relinchar”, em seu sentido literal, indica o som emitido por animais equinos como cavalos e zebras. Nesse sentido, não pode ser conjugado na 1ª ou na 2ª pessoa nem no modo imperativo, pois não faz sentido o uso literal nesses casos (já que seres humanos não relincham literalmente).

Porém, quando o verbo “relinchar” é usado em sentido figurado, a licença poética permite que esse verbo seja conjugado como qualquer outro verbo regular ou irregular, já que o sentido é metafórico. Exemplo:

Ela disse que nós relinchamos a manhã toda, só porque estávamos impacientes!

Aqui, o verbo “relinchar” é usado como sinônimo exagerado de “bufar”, por isso foi conjugado na 1ª pessoa do plural (“nós”).

Leia também: Verbos abundantes — aqueles com mais de uma forma aceita em algumas conjugações

Classificação dos verbos defectivos

Em geral, os verbos defectivos podem ser classificados como impessoais e unipessoais.

  • Verbos impessoais

São aqueles que não têm sujeito, já que seu sentido literal não é uma ação realizável ou sofrida por ninguém. É o caso de fenômenos naturais (“chover”, “nevar”, “gear” etc.) e de alguns verbos específicos (“haver”, com sentido de “existir”, e “fazer”, com sentido de tempo decorrido).

  • Verbos unipessoais 

São verbos que têm sujeito apenas na 3ª pessoa, uma vez que seu sentido literal é uma ação que não tem como ser realizada pela 1ª ou pela 2ª pessoa verbal (“eu”/“nós”, “tu”/“vós”). É o caso de sons e ações feitas por animais (“latir”, “miar”, “cacarejar”, “galopar”, “rosnar” etc.).

Exercícios resolvidos sobre verbos defectivos

Questão 1

Assinale a alternativa que apresenta um verbo defectivo unipessoal.

A) Choveu muito durante a noite.

B) Muitos problemas existem nesta cidade.

C) Nós comemos no intervalo da aula.

D) Os cães latiram quando a tarde toda.

E) Eles estudarão para a prova amanhã.

Resposta

Alternativa D. O verbo “latir” é classificado como defectivo unipessoal, pois representa um som feito por animais, não sendo possível conjugá-lo fora da 3ª pessoa (no sentido literal).

Questão 2

(Copeve - Ufal)

BICHO-CARPINTEIRO

Há mais de um século a expressão “ter (ou estar com) bicho-carpinteiro” significa “ser muito inquieto, não parar no lugar”. Faz pouco tempo, porém, os reformadores da fraseologia começaram a espalhar a seguinte tese fraudulenta: “O certo é ter bicho no corpo inteiro”. Errado. O dislate parte assumidamente da ignorância de um fato básico da língua: o de que existe uma criatura chamada bicho-carpinteiro. Segundo o Houaiss, ele é o nome popular e genérico de “diversas espécies de besouro, especialmente das famílias dos buprestídeos e cerambicídeos, que durante o estágio larvar brocam troncos e cascas de árvores”. Como se vê, a ideia da velha expressão é propor uma metáfora: a de que, como as árvores sob a casca, a pessoa irrequieta tem sob a pele as larvas desses insetos a se remexer constantemente, fazendo cócegas e não a deixando sossegada.

Sobre palavras. Revista Veja. Edição 2.347/ Ano 46/ Nº 46. 13 nov. 2013.

A impessoalidade que ocorre na forma verbal da oração “Há mais de um século [...]” é também percebida em:

A) “O certo é ter bicho no corpo inteiro”.

B) “[...] ele é o nome popular e genérico de “diversas espécies de besouro, [...]”.

C) “Como se vê, a ideia da velha expressão é propor uma metáfora [...]”.

D) “Faz pouco tempo, porém, [...]”.

E) “[...] fazendo cócegas e não a deixando sossegada”.

Resposta

Alternativa D. O verbo “fazer”, com sentido de tempo decorrido, não tem sujeito, sendo impessoal.

Fontes

AZEREDO, José Carlos de. Gramática Houaiss da Língua Portuguesa. São Paulo: Parábola, 2021.

BECHARA, Evanildo. Moderna Gramática Portuguesa. 38ª ed. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2015.

CEGALLA, Domingos Paschoal. Novíssima Gramática da Língua Portuguesa. São Paulo: Companhia Editora Nacional, 2020.

CUNHA, Celso; CINTRA, Lindley. Nova Gramática do Português Contemporâneo. 7ª ed. Rio de Janeiro: Lexikon, 2016.

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