Realismo no Brasil

Por Warley Souza

O Realismo no Brasil teve início no ano de 1881, quando Machado de Assis (1839-1908), que, até então, era um escritor romântico, publicou a obra realista Memórias póstumas de Brás Cubas. Dessa forma, o autor mostrava o seu desencanto com a estética romântica e o conservadorismo que ela representava.

Após a publicação desse romance, o escritor também publicou duas outras grandes obras realistas: Quincas Borba e Dom Casmurro. Nelas o narrador empreende uma análise crítica da sociedade carioca e, sem idealizações românticas, faz um retrato fiel e irônico da corrupta e hipócrita burguesia do século XIX no Brasil.

Leia também: Parnasianismo no Brasil – movimento poético antirromântico

Contexto histórico do Realismo no Brasil

Cena de família de Adolfo Augusto Pinto, obra do pintor realista Almeida Júnior (1850-1899).
Cena de família de Adolfo Augusto Pinto, obra do pintor realista Almeida Júnior (1850-1899).

Na segunda metade do século XIX, a economia brasileira passava por grandes dificuldades. Com a proibição do tráfico de escravos em 1850, o país precisava buscar outro tipo de mão de obra. No entanto, os conservadores fazendeiros resistiam ao fim da escravidão, que só aconteceria em 1888.

Além disso, com os gastos da Guerra do Paraguai, que durou seis anos, isto é, de 1864 a 1870, o país ficou ainda mais endividado. Nesse contexto, o movimento republicano ganhou força, já que a monarquia representava um país conservador, no qual os fazendeiros escravocratas eram os maiores beneficiados.

Nas artes, como reflexo dessa situação, o Romantismo, que floresceu em meio ao conservadorismo monárquico, entrou em decadência. Desse modo, a estética realista assumiu o protagonismo, pois contrariava a idealização romântica para mostrar a realidade brasileira, de forma crítica e objetiva.

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Características do realismo no Brasil

O Realismo surgiu como forma de oposição ao Romantismo. Desse modo, esse antirromantismo levou os autores realistas a rejeitarem a subjetividade e o sentimentalismo, recorrendo também a uma linguagem mais objetiva e analítica. Portanto, eles abandonaram o teocentrismo e privilegiaram o antropocentrismo, isto é, valorizaram a razão.

No Brasil, o Realismo também é caracterizado pela ironia, principalmente em relação aos costumes da burguesia, classe social celebrada pelos românticos, mas atacada pelos realistas. Dessa forma, o narrador realista faz crítica sociopolítica, centrada nos acontecimentos contemporâneos, e análise psicológica dos personagens.

Os protagonistas, integrantes da elite burguesa, são descritos sem qualquer idealização. Comumente são retratados como opressores, corruptos e hipócritas. Assim, o casamento, instituição burguesa, é colocado em questão quando o narrador expõe o adultério feminino.

Principais obras do Realismo no Brasil

Os livros da segunda fase do escritor Machado de Assis são as principais obras do Realismo no Brasil. São eles:

  • Memórias póstumas de Brás Cubas (1881);

  • Papéis avulsos (1882);

  • Histórias sem data (1884);

  • Quincas Borba (1891);

  • Várias histórias (1896);

  • Dom Casmurro (1899);

  • Páginas recolhidas (1899);

  • Esaú e Jacó (1904);

  • Memorial de Aires (1908).

Veja também: Realismo — as origens desse movimento que teve como precursor Gustav Flaubert

Autores do Realismo no Brasil

Machado de Assis é o único escritor brasileiro de fato realista, já que, no final do século XIX, a maioria dos escritores nacionais preferiu se filiar ao Naturalismo. No entanto, os dois estilos apresentam traços em comum, pois ambos são antirromânticos, privilegiam a razão e fazem crítica sociopolítica.

Machado de Assis é o grande escritor realista brasileiro.
Machado de Assis é o grande escritor realista brasileiro.

O que diferencia um do outro é o cientificismo, isto é, o Naturalismo busca na ciência explicações para o comportamento humano. Já o Realismo, apesar de ter uma visão científica, ou seja, objetiva da realidade, não recorre a teorias científicas da época, muitas vezes equivocadas, para determinar o destino de seus personagens.

Portanto, Machado de Assis não é um autor naturalista, mas os autores naturalistas podem ser considerados também realistas. Os autores brasileiros realistas e também naturalistas são:

  • Aluísio Azevedo (1857-1913);

  • Raul Pompeia (1863-1895);

  • Adolfo Caminha (1867-1897);

  • Júlio Ribeiro (1845-1890);

  • Júlia Lopes de Almeida (1862-1934).

Resumo sobre o Realismo no Brasil

  • Contexto histórico:

- Lei Eusébio de Queirós;

- Guerra do Paraguai;

- movimento republicano.

  • Características do Realismo no Brasil:

- ironia;

- antirromantismo;

- linguagem objetiva;

- antropocentrismo;

- crítica sociopolítica;

- ataque à burguesia;

- análise psicológica;

- ausência de idealizações;

- temática do adultério.

  • Principais obras do realismo no Brasil:

- Memórias póstumas de Brás Cubas;

- Papéis avulsos;

- Histórias sem data;

- Quincas Borba;

- Várias histórias;

- Dom Casmurro;

- Páginas recolhidas;

- Esaú e Jacó;

- Memorial de Aires.

  • Principal autor do Realismo no Brasil:

- Machado de Assis.

  • Autores naturalistas:

- Aluísio Azevedo;

- Raul Pompeia;

- Adolfo Caminha;

- Júlio Ribeiro;

- Júlia Lopes de Almeida.

Leia também: O que é o realismo fantástico?

Exercícios resolvidos

Questão 1 - (Enem)

Esaú e Jacó

Ora, aí está justamente a epígrafe do livro, se eu lhe quisesse pôr alguma, e não me ocorresse outra. Não é somente um meio de completar as pessoas da narração com as ideias que deixarem, mas ainda um par de lunetas para que o leitor do livro penetre o que for menos claro ou totalmente escuro.

Por outro lado, há proveito em irem as pessoas da minha história colaborando nela, ajudando o autor, por uma lei de solidariedade, espécie de troca de serviços, entre o enxadrista e os seus trabalhos.

Se aceitas a comparação, distinguirás o rei e a dama, o bispo e o cavalo, sem que o cavalo possa fazer de torre, nem a torre de peão. Há ainda a diferença da cor, branca e preta, mas esta não tira o poder da marcha de cada peça, e afinal umas e outras podem ganhar a partida, e assim vai o mundo.

ASSIS, M. Obra completa. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1964 (fragmento).

O fragmento do romance Esaú e Jacó mostra como o narrador concebe a leitura de um texto literário. Com base nesse trecho, tal leitura deve levar em conta:

A) o leitor como peça fundamental na construção dos sentidos.

B) a luneta como objeto que permite ler melhor.

C) o autor como único criador de significados.

D) o caráter de entretenimento da literatura.

E) a solidariedade de outros autores.

Resolução

Alternativa A. No trecho de Esaú e Jacó, obra realista de Machado de Assis, o leitor é considerado uma peça fundamental na construção dos sentidos, como demonstra este fragmento: “[...], mas ainda um par de lunetas para que o leitor do livro penetre o que for menos claro ou totalmente escuro”.

Questão 2 - (Enem)

Talvez pareça excessivo o escrúpulo do Cotrim, a quem não souber que ele possuía um caráter ferozmente honrado. Eu mesmo fui injusto com ele durante os anos que se seguiram ao inventário do meu pai. Reconheço que era um modelo. Arguiam-no de avareza, e cuido que tinham razão; mas a avareza é apenas a exageração de uma virtude, e as virtudes devem ser como os orçamentos: melhor é o saldo que o déficit. Como era muito seco de maneira, tinha inimigos que chegaram a acusá-lo de bárbaro. O único fato alegado neste particular era o de mandar com frequência escravos ao calabouço, donde eles desciam a escorrer sangue; mas, além de que ele só mandava os perversos e os fujões, ocorre que, tendo longamente contrabandeado em escravos, habituara-se de certo modo ao trato um pouco mais duro que esse gênero de negócio requeria, e não se pode honestamente atribuir à índole original de um homem o que é puro efeito de relações sociais. A prova de que Cotrim tinha sentimentos pios encontrava-se no seu amor aos filhos, e na dor que padeceu quando morreu Sara, dali a alguns meses; prova irrefutável, acho eu, e não única. Era tesoureiro de uma confraria, e irmão de várias irmandades, e até irmão remido de uma destas, o que não se coaduna muito com a reputação de avareza; verdade é que o benefício não caíra no chão: a irmandade (de que ele fora juiz) mandara-lhe tirar o retrato a óleo.

ASSIS, M. Memórias póstumas de Brás Cubas. Rio de janeiro: Aguilar, 1992.

Obra que inaugura o Realismo na literatura brasileira, Memórias póstumas de Brás Cubas condensa uma expressividade que caracterizaria o estilo machadiano: a ironia. Descrevendo a moral de seu cunhado, Cotrim, o narrador-personagem Brás Cubas refina a percepção irônica ao:

A) acusar o cunhado de ser avarento para confessar-se injustiçado na divisão da herança paterna.

B) atribuir a “efeito de relações sociais” a naturalidade com que Cotrim prendia e torturava os escravos.

C) considerar os “sentimentos pios” demonstrados pelo personagem quando da perda da filha Sara.

D) menosprezar Cotrim por ser tesoureiro de uma confraria e membro remido de várias irmandades.

E) insinuar que o cunhado era um homem vaidoso e egocêntrico, contemplado com o retrato a óleo.

Resolução

Alternativa B. No fragmento de Memórias póstumas de Brás Cubas, obra realista de Machado de Assis, ao dizer que a forma como Cotrim prendia e torturava os escravos era “efeito de relações sociais”, o narrador faz uma ironia, já que a prisão e tortura desses indivíduos são atos cruéis e desumanos e nada têm a ver com “relações sociais”.

Questão 3 - (Enem)

Garcia tinha-se chegado ao cadáver, levantara o lenço e contemplara por alguns instantes as feições defuntas. Depois, como se a morte espiritualizasse tudo, inclinou-se e beijou-a na testa. Foi nesse momento que Fortunato chegou à porta. Estacou assombrado; não podia ser o beijo da amizade, podia ser o epílogo de um livro adúltero […].

Entretanto, Garcia inclinou-se ainda para beijar outra vez o cadáver, mas então não pôde mais. O beijo rebentou em soluços, e os olhos não puderam conter as lágrimas, que vieram em borbotões, lágrimas de amor calado, e irremediável desespero. Fortunato, à porta, onde ficara, saboreou tranquilo essa explosão de dor moral que foi longa, muito longa, deliciosamente longa.

ASSIS, M. A causa secreta. Disponível em: . Acesso em: 9 out. 2015.

No fragmento, o narrador adota um ponto de vista que acompanha a perspectiva de Fortunato. O que singulariza esse procedimento narrativo é o registro do(a):

A) indignação face à suspeita do adultério da esposa.

B) tristeza compartilhada pela perda da mulher amada.

C) espanto diante da demonstração de afeto de Garcia.

D) prazer da personagem em relação ao sofrimento alheio.

E) superação do ciúme pela comoção decorrente da morte.

Resolução

Alternativa D. Nesse conto realista de Machado de Assis, é possível perceber que o personagem Fortunato, um homem sádico, sente prazer com o sofrimento alheio, pois “saboreou” a dor de Garcia, que foi longa, “deliciosamente” longa.  

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