Conto

Por Marcelo Sartel

O conto é um gênero literário que possui narrativa curta e tem sua origem da necessidade humana de contar e ouvir histórias. Passa por narrativas orais de povos antigos, trilhando pelos gregos e romanos, pelas lendas orientais, parábolas bíblicas, novelas medievais, até chegar a nós como é conhecido hoje.

A estrutura do conto é formada por situação inicial, desenvolvimento e situação final. Essa divisão é parte importante para composição do enredo. Dessa forma, na construção do conto, ocorrem os elementos da narrativa, que são: foco narrativo, espaço, tempo e verossimilhança. Devido à necessidade de contextualizar a narrativa, o conto sofreu diversas transformações ao longo da história, originando tipos:

  • conto de ficção científica
  • conto infantil juvenil
  • conto fantástico
  • conto de fadas

Leia também: Crônica – gênero híbrido que transita entre o universo jornalístico e o literário

O conto é composto basicamente por situação inicial, desenvolvimento e situação final.
O conto é composto basicamente por situação inicial, desenvolvimento e situação final.

Estrutura do conto

Ao escrever um conto, é necessário observar sua estrutura e as partes que compõem o enredo. Enredo também é conhecido como trama ou intriga e tem a função de dar sequência à narrativa e localizar o leitor em relação à sucessão de acontecimentos, dando ênfase à causalidade.

Exemplo:

O príncipe morreu, e a princesa, de tristeza, foi viver sozinha numa velha cidade longe do castelo.

Perceba a ocorrência de uma sequência temporal e a ênfase que se dá à sequência de acontecimentos, dando ao leitor a percepção de como a princesa sentiu-se diante da morte do príncipe. Dessa forma, o leitor fica na expectativa do que virá adiante na narrativa. Essa construção — que conduz o leitor à imaginação e ao estabelecimento de novos sentidos no texto — constitui enredo.

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O conto é composto basicamente por situação inicial, desenvolvimento e situação final. Veja:

  • Situação inicial: evidencia a situação que dará início à narrativa, apresentando os personagens, o tempo e o espaço descrevendo-os. Trata-se de um trecho essencial para localizar e captar a atenção do leitor. Na introdução também se apresenta a situação inicial, que será desenvolvida ao longo do texto por meio do conflito, clímax e desfecho. Esses termos serão explicados mais adiante.
  • Desenvolvimento: é nesse momento que surge a quebra do aspecto predominantemente descritivo e o conflito começa a ser percebido pelo leitor. Esse conflito resultará no clímax, o momento de maior tensão da narrativa.
  • Situação final: é o momento de desfecho do conto, quando o conflito é resolvido, resultando na quebra ou confirmação de uma expectativa. Nesse trecho, o conflito passou e os personagens são inseridos em uma nova situação.

Após evidenciar a estrutura básica do conto, é preciso considerar os elementos fundamentais que dão a ele boa estruturação da narrativa. Veja:

  • Conflito: trata-se do momento em que ocorre uma oposição entre os elementos da narrativa, resultando em uma tensão que organiza os fatos. O conflito instiga o leitor em relação à narrativa.
  • Clímax: é quando a narrativa alcança a tensão máxima. É o ponto culminante do conflito. Trata-se também de uma técnica muito utilizada para despertar a curiosidade do leitor.
  • Desfecho: trata-se da situação final, ou seja, a solução do conflito.

Veja também: Sagarana – livro de contos regionalistas de João Guimarães Rosa

Elementos da narrativa

Apesar de o conto ser uma narrativa curta, esse gênero apresenta elementos como foco narrativo, espaço, tempo e verossimilhança.

  • Foco narrativo

É a posição que o narrador assume para relatar os acontecimentos. O conto pode ser narrado em 1ª pessoa ou 3ª pessoa.

  • Narrador em 1ª pessoa: trata-se do narrador personagem. Com esse foco narrativo, o conto ganha mais subjetividade, pois o narrador está emocionalmente envolvido na narrativa.
  • Narrador em 3ª pessoa: o narrador não participa ativamente dos acontecimentos, com isso, a narrativa ganha mais objetividade. Nesse foco narrativo, o narrador pode ser onisciente ou observador.
  • Narrador onisciente: é o narrador que conhece profundamente a história e relata, inclusive, os pensamentos dos personagens.
  • Narrador observador: não está a par de toda a história e relata apenas os fatos que vão acontecendo. Esse narrador não faz antecipações nem intervenções no relato da história.
  • Espaço

Trata-se da composição espacial da narrativa em que ocorre a ação do enredo, espaço onde os personagens movimentam-se. Normalmente, o espaço é apresentado por meio de recursos descritivos que caracterizam o lugar. Esse elemento da narrativa pode ocupar dois níveis: espaço físico, também conhecido como geográfico, e espaço social.

  • Espaço físico: é literalmente o espaço físico em que ocorre a narrativa. O espaço pode ser descrito detalhadamente ou suas características podem ser evidenciadas ao longo do texto.
  • Espaço social: é o espaço que condiz com as condições socioeconômicas, morais ou psicológicas dos personagens. Esses espaços podem determinar a vida dos personagens ou servir apenas de parte da composição da narrativa. Dessa forma, um espaço descrito como macabro, por exemplo, pode referir-se à tristeza do personagem, a uma lembrança de morte etc.
  • Tempo

O tempo compõe as marcas cronológicas na narrativa, expressas por meio de construções como dia, mês, ano, estações do tempo etc. Também pode ocorrer por meio de marcas psicológicas do personagem ou narrador. Esse elemento da narrativa possui três níveis: tempo cronológico, tempo psicológico e a técnica do flashback.

  • Tempo cronológico: o tempo transcorre de forma linear em relação aos fatos, do começo para o final. Trata-se de um tempo que pode ser medido em horas, meses, anos, séculos.
  • Tempo psicológico: é o tempo “interior”, aquele que ocorre com base na imaginação ou memória do narrador ou personagem e é marcado pelas sensações experimentadas por ele em relação a um determinado momento. Não é linear, pois os acontecimentos não ocorrem de forma natural.
  • A técnica do flashback: trata-se de uma marca que consiste em voltar no tempo em relação ao que está sendo narrado. Ocorre quando o personagem ou narrador relembra um fato ou compartilha esses acontecimentos relembrados.

Verossimilhança

Verossimilhança possui o significado daquilo que é “provável”, ou seja, um universo possível de ser realizado dentro de uma narrativa ficcional, dando ao leitor a ideia de que tais acontecimentos são perfeitamente possíveis no mundo real.

Tipos de conto

Devido à necessidade de contextualizar a narrativa, o conto sofreu diversas transformações ao longo da história, originando tipos: conto de ficção científica, conto infantil juvenil, conto fantástico e conto de fadas. Veja os tipos de conto:

  • Conto de ficção científica: caracterizado por possuir elementos que não fazem parte de uma realidade comum. Seu enredo é construído com base em percepções científicas e tecnológicas.
  • Conto infantil juvenil: narrativa destinada a crianças e adolescentes. Possui linguagem mais simples e elementos que fazem parte do mundo do seu público-alvo.
  • Conto fantástico: construído com personagens e narrativas impossíveis na realidade, é inspirado em narrativas clássicas, como Odisseia, de Homero.
  • Conto de fadas: caracterizado por iniciar com a expressão “Era uma vez...” e apresentar alguma maldade feita por alguém, costuma ter desfecho favorável aos personagens, podendo ou não ter interferência de seres encantados (fadas, bruxas, duendes).

Acesse também: Franz Kafka – autor que incluiu elementos fantásticos em suas narrativas

Exemplo de conto

Leia o conto “

Uma ideia toda azul”, de Marina Colasanti.

Um dia o Rei teve uma ideia. Era a primeira da vida toda, e tão maravilhado ficou com aquela ideia azul, que não quis saber de contar aos ministros. Desceu com ela para o jardim, correu com ela nos gramados, brincou com ela de esconder entre outros pensamentos, encontrando-a sempre com igual alegria, linda ideia dele toda azul. Brincaram até o Rei adormecer encostado numa árvore.

Foi acordar tateando a coroa e procurando a ideia, para perceber o perigo. Sozinha no seu sono, solta e tão bonita, a ideia poderia ter chamado a atenção de alguém.

Bastaria esse alguém pegá-la e levar. É tão fácil roubar uma ideia: Quem jamais saberia que já tinha dono?

Com a ideia escondida debaixo do manto, o Rei voltou para o castelo. Esperou a noite. Quando todos os olhos se fecharam, saiu dos seus aposentos, atravessou salões, desceu escadas, subiu degraus, até chegar ao Corredor das Salas do Tempo.

Portas fechadas, e o silêncio.

Que sala escolher?

Diante de cada porta o Rei parava, pensava, e seguia adiante. Até chegar à Sala do Sono.

Abriu. Na sala acolchoada os pés do Rei afundavam até o tornozelo, o olhar se embaraçava em gazes, cortinas e véus pendurados como teias. Sala de quase escuro, sempre igual. O Rei deitou a ideia adormecida na cama de marfim, baixou o cortinado, saiu e trancou a porta.

A chave prendeu no pescoço em grossa corrente. E nunca mais mexeu nela.

O tempo correu seus anos. Ideias o Rei não teve mais, nem sentiu falta, tão ocupado estava em governar. Envelhecia sem perceber, diante dos educados espelhos reais que mentiam a verdade. Apenas, sentia-se mais triste e mais só, sem que nunca mais tivesse tido vontade de brincar nos jardins.

Só os ministros viam a velhice do Rei. Quando a cabeça ficou toda branca, disseram-lhe que já podia descansar, e o libertaram do manto.

Posta a coroa sobre a almofada, o Rei logo levou a mão à corrente.

Ninguém mais se ocupa de mim — dizia atravessando salões e descendo escadas a caminho das Salas do Tempo — ninguém mais me olha. Agora posso buscar minha linda ideia e guardá-la só para mim.

Abriu a porta, levantou o cortinado.

Na cama de marfim, a ideia dormia azul como naquele dia. 

Como naquele dia, jovem, tão jovem, uma ideia menina. E linda. Mas o Rei não era mais o Rei daquele dia. Entre ele e a ideia estava todo o tempo passado lá fora, o tempo todo parado na Sala do Sono. Seus olhos não viam na ideia a mesma graça. Brincar não queria, nem rir. Que fazer com ela? Nunca mais saberiam estar juntos como naquele dia.

Sentado na beira da cama o Rei chorou suas duas últimas lágrimas, as que tinha guardado para a maior tristeza.

Depois baixou o cortinado, e deixando a ideia adormecida, fechou para sempre a porta.

A chave prendeu no pescoço em grossa corrente. E nunca mais mexeu nela.

COLASANTI, Marina. Uma ideia toda azul. 19.ed. São Paulo: Global Editora, 1998.

O conto de Marina Colasanti dialoga com a narrativa mágica, próxima da percepção dos contos de fada. Esse processo pode ser percebido na construção personificada da “Ideia”, capaz de brincar e de adormecer.

Ao longo da leitura, é perceptível que se trata da história de um rei que não tinha ideias, e quando teve uma, decidiu guardá-la por muito tempo, até que ela se tornasse ultrapassada. Esse conto nos traz uma boa reflexão: a de que boas ideias precisam ser executadas.

A situação inicial do conto de Marina Colasanti ocorre a partir do trecho “Um dia o Rei teve uma ideia[…]”. Já o desenvolvimento, período em que se estabelece o conflito, é configurado no trecho em que o Rei envelhece e decide libertar a ideia. Fica evidente que o clímax pode ser manifestado no momento em que o Rei reencontra a ideia ainda adormecida, pois é a partir dessa circunstância que a situação final será estabelecida, o que significa que o Rei, agora aposentado, percebe que a ideia já não tem mais serventia e abandona-a no quarto, ainda trancafiado.

Quanto aos elementos da narrativa, o narrador é observador e o espaço é configurado em um ambiente físico, ou seja, o castelo do Rei. Em relação aos aspectos da verossimilhança, é possível entender que o fato de o Rei ter tido uma grande ideia e tê-la escondido dos demais é perfeitamente executável em um “mundo real”.

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