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Sinestesia

A sinestesia é uma figura de linguagem. Ela consiste na combinação entre dois ou mais dos cinco sentidos e é usada para despertar sensações em quem ouve ou lê um texto.

Por Warley Souza

Infográfico sobre sinestesia mostrando a combinação entre audição, olfato, paladar, tato e visão.
A sinestesia é uma figura de linguagem. (Imagem feita por IA)
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Sinestesia é uma figura de palavra. Ela consiste na combinação de dois ou mais sentidos (audição, olfato, paladar, tato e visão) sugeridos por termos expressos no texto. Por exemplo: “A doçura de seu beijo contrastava com seus aromáticos lábios gélidos”. Nesse caso, combinamos três sentidos: paladar (“doçura”), olfato (“aromáticos”) e tato (“gélidos”).

Leia também: O que são figuras de linguagem?

Resumo sobre sinestesia

  • A sinestesia é uma figura de palavra ou semântica caracterizada pela combinação entre dois ou mais sentidos (audição, olfato, paladar, tato e visão).
  • A sinestesia é bastante utilizada em poesia: “As asas de ouro finamente abrindo.../ Dos etéreos turíbulos de neve/ Claro incenso aromal, límpido e leve”.
  • Na música, a sinestesia pode estar associada a múltiplas sensações subjetivas despertadas na(o) ouvinte pela melodia.
  • “Sinestesia” também é o nome de certa condição neurológica em que um som pode, de fato, acionar múltiplos sentidos, experimentados simultaneamente por uma pessoa.

O que é sinestesia?

A sinestesia é uma figura de palavra ou semântica que consiste na combinação entre dois ou mais sentidos (audição, olfato, paladar, tato e visão).

Quando esse fenômeno ocorre, o texto fica mais expressivo, já que desperta em quem lê um conjunto de sensações. Assim, dizer que algo é “azul e amargo” provoca em quem ouve ou lê essa frase sensações muito particulares, pois cada um de nós pode ter uma percepção dessa combinação.

Eu, quando vejo tal combinação, sinto um amargor na garganta ao mesmo tempo que o peso do azul oprime o meu peito. E você? Que sensações essa combinação provoca em você? De qualquer forma, a sinestesia, nesse caso, permite que “azul” e “amargo”, combinados, assumam nova significação, como a que mencionei há pouco.

Esse recurso estilístico é bastante usado em poesia. Um dos estilos de época que mais utilizam a sinestesia é o Simbolismo. Tal estética valoriza sensações em detrimento da racionalidade. No Brasil, ela esteve em evidência entre 1893 e 1902, tendo como principal representante o poeta Cruz e Sousa.

Observe só como a sinestesia é utilizada em seu poema Siderações:

Para as Estrelas de cristais gelados
As ânsias e os desejos vão subindo,
Galgando azuis e siderais noivados
De nuvens brancas a amplidão vestindo...

Num cortejo de cânticos alados
Os arcanjos, as cítaras ferindo,
Passam, das vestes nos troféus prateados,
As asas de ouro finamente abrindo...

Dos etéreos turíbulos de neve
Claro incenso aromal, límpido e leve,
Ondas nevoentas de Visões levanta...

E as ânsias e os desejos infinitos
Vão com os arcanjos formulando ritos
Da Eternidade que nos Astros canta...

Assim, a obra combina sensações e desperta os seguintes sentidos: tato (“gelados”, “neve”), visão (“azuis”, “brancas”, “prateados”, “ouro”, “neve”), audição (“cânticos”, “cítaras ferindo”, “canta”) e olfato (“aromal”). Se você ler o poema em voz alta, em busca de vivenciar as sensações, vai ter uma experiência única.

Frases com sinestesia

A gélida Maria cantava com voz áspera.
[tato, audição]

Sua triste vida amarga e escura chegou ao fim.
[paladar, visão]

Sua voz estridente e azeda era como um choque elétrico a despertar-nos.
[audição, paladar, tato]

Tive um doce sonho em que rosas vermelhas emanavam perfumes sublimes.
[paladar, visão, olfato]

Seu beijo era mel aquecido em sol de verão.
[paladar, tato]

Odilon lançou-me um olhar frio enquanto sorria amargamente.
[tato, paladar]

Seu toque macio aqueceu meu coração agitado e barulhento.
[tato, audição]

Seu beijo aveludado era arco-íris em meu peito solitário.
[tato, visão]

Tinha um coração de pedra e um abraço branco, ausente.
[tato, visão]

A manhã morna tinha um aroma campestre e uma brisa arrepiante.
[tato, olfato]

Ouvi um grito verde de criança recém-nascida.
[audição, visão]

Eram sons doces que faziam dormir.
[audição, paladar]

O brilho das cordas da guitarra soavam como lamento noturno.
[visão, audição]

O cheiro ácido da laranja impregnou o ambiente.
[olfato, paladar]

Ouvi uma gargalhada ácida, impiedosa.
[audição, paladar]

Badalavam os duros sinos na noite.
[audição, tato]

Sentia o perfume refrescante de verde hortelã.
[olfato, tato, visão]

O azul doce do céu fazia sonhar.
[visão, paladar]

O ouro brilhava rigidamente.
[visão, tato]

Era um azedume de boca fétida ao amanhecer.
[paladar, olfato]

Sinestesia na música

Na música, predomina o estímulo do sentido da audição. Porém, como a recepção de uma obra é única e particular, podemos associar certa melodia a um cheiro, a um gosto, a uma sensação tátil ou a uma imagem. Temos aí algo bastante subjetivo, ou seja, particular, emotivo, único e pessoal.

Quero dizer que, ao ouvir determinada melodia, posso fazer associações de tal som a imagens, cheiros ou gostos. Mas se você ouvir a mesma melodia, suas associações vão ser distintas da minha ou mesmo inexistentes. Segundo o pesquisador Guilherme Francisco Furtado Bragança,

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as significações externas à estrutura musical passam, geralmente, por associações entre a sensação sonora e outras sensações, como visuais (brilhos, cores, claro/ escuro), movimentos (direcionais, circulares, estáticos, dinâmicos), densidades (denso, rarefeito), peso (leve, pesado) ou texturas (liso, áspero). Mesmo que tais associações nem sempre cheguem a se mostrar conscientes, elas influenciariam nossa percepção.

Porém, também existe uma condição neurológica chamada “sinestesia”. Nesse caso, uma pessoa, ao ouvir um som, pode percebê-lo como uma cor, um gosto ou um cheiro, por exemplo. Assim, um estímulo sensorial pode fazer com que a pessoa experimente outros sentidos ao mesmo tempo.

Esse estímulo pode, por exemplo, ser um som (ou uma música) que faz com que a pessoa veja uma cor, sinta uma textura, um gosto ou um cheiro. Mas as sensações ocorrem ao mesmo tempo. Assim, quem tem essa experiência pode ter apenas dois sentidos combinados, como também pode ter múltiplas sensações.

Portanto, você precisa diferenciar a sinestesia enquanto condição neurológica (em que a pessoa realmente vê e sente) da sinestesia artística. No campo artístico, ao ouvir uma melodia, a pessoa pode associar essa melodia à cor vermelha, por exemplo, mas ela não vê a cor. Já quem tem a condição neurológica vê, de fato, a cor vermelha ao ouvir tal melodia.

Leia também: Quais são as figuras de pensamento?

Exercícios sobre sinestesia

Questão 1 (Enem)

Ferreira Gullar, um dos grandes poetas brasileiros da atualidade, é autor de “Bicho urbano”, poema sobre a sua relação com as pequenas e grandes cidades.

Bicho urbano

Se disser que prefiro morar em Pirapemas
ou em outra qualquer pequena cidade do país
estou mentindo
ainda que lá se possa de manhã
lavar o rosto no orvalho
e o pão preserve aquele branco
sabor de alvorada.

.....................................................................

A natureza me assusta.
Com seus matos sombrios suas águas
suas aves que são como aparições
me assusta quase tanto quanto
esse abismo
de gases e de estrelas
aberto sob minha cabeça.

GULLAR, Ferreira. Toda poesia. Rio de Janeiro: José Olympio Editora, 1991.

Embora não opte por viver numa pequena cidade, o poeta reconhece elementos de valor no cotidiano das pequenas comunidades. Para expressar a relação do homem com alguns desses elementos, ele recorre à sinestesia, construção de linguagem em que se mesclam impressões sensoriais diversas. Assinale a opção em que se observa esse recurso.

A) “e o pão preserve aquele branco/ sabor de alvorada”.

B) “ainda que lá se possa de manhã/ lavar o rosto no orvalho”.

C) “A natureza me assusta./ Com seus matos sombrios suas águas”.

D) “suas aves que são como aparições/ me assusta quase tanto quanto”.

E) “me assusta quase tanto quanto/ esse abismo/ de gases e de estrelas”.

Resolução:

Alternativa A.

Na alternativa A, existe a combinação entre os sentidos da visão (“branco”) e do paladar (“sabor”). Já as outras alternativas não apresentam palavras que sugiram mais de um sentido humano. Vale lembrar que o susto é uma emoção e não uma experiência sensorial.

Questão 2

Incensos

Dentre o chorar dos trêmulos violinos,
Por entre os sons dos órgãos soluçantes
Sobem nas catedrais os neblinantes
Incensos vagos, que recordam hinos...

Rolos d’incensos alvadios, finos
E transparentes, fulgidos, radiantes,
Que elevam-se aos espaços, ondulantes,
Em Quimeras e Sonhos diamantinos.

Relembrando turíbulos de prata
Incensos aromáticos desata
Teu corpo ebúrneo, de sedosos flancos.

Claros incensos imortais que exalam,
Que lânguidas e límpidas trescalam
As luas virgens dos teus seios brancos.

Cruz e Sousa.

Na segunda estrofe do poema, qual dos cinco sentidos humanos é mais recorrente?

A) Audição.

B) Olfato.

C) Paladar.

D) Tato.

E) Visão.

Resolução:

Alternativa E.

A visão é o sentido predominante na estrofe e está relacionada às palavras “alvadios”, “transparentes”, “fulgidos”, “radiantes”, “ondulantes” e “diamantinos”.

Fontes

BRAGANÇA, Guilherme Francisco Furtado. Parâmetros para o estudo da sinestesia na música. Per Musi, Belo Horizonte, n. 21, p. 80-89, 2010.

CEGALLA, Domingos Paschoal. Novíssima gramática da língua portuguesa. 49. ed. São Paulo: Companhia Editora Nacional, 2020.

CRUZ E SOUSA. Broquéis. Porto Alegre: L&PM, 2011.

SACCONI, Luiz Antonio. Nossa gramática: teoria e prática. 26. ed. São Paulo: Atual Editora, 2001.

TOMASIA, Maria Cecilia et al. Sinestesia e o transtorno do espectro do autismo (TEA). Revista de Atenção à Saúde, São Caetano do Sul, v. 16, n. 55, p. 81-88, jan./ mar. 2018.