Fonética e fonologia
Fonética e fonologia são ciências linguísticas que estudam os sons da fala. A fonética ocupa-se do processo de produção fonética. A fonologia estuda os fonemas de uma língua.
Por Warley Souza
Fonética e fonologia são ciências que estudam os sons da língua falada e como eles são produzidos. A fonética está centrada no estudo da produção dos sons e na função do aparelho fonador. Já a fonologia está focada no estudo do fonema em si, o qual é a menor unidade sonora da fala.
Leia também: Morfologia — área gramatical responsável pelo estudo da palavra
Resumo sobre fonética e fonologia
- Fonética e fonologia são áreas de estudo sobre os sons das línguas faladas e como eles são produzidos.
- A fonética estuda o processo de produção dos sons durante a fala, o qual envolve o aparelho fonador.
- A fonologia estuda os fonemas, isto é, os sons produzidos pelo aparelho fonador.
- O fonema (menor unidade sonora da fala) é indicado por um símbolo entre barras, como, por exemplo, “/s/”.
- A letra e o dígrafo são usados na escrita como representações dos fonemas produzidos na fala.
- Os fonemas são classificados em:
- vogais: representadas, na escrita, pelas letras “a”, “e”, “i”, “o” e “u”;
- semivogais: representadas, na escrita, pelas letras “i” e “u” principalmente;
- consoantes: representadas, na escrita, pelas demais letras do alfabeto.
- O Alfabeto Fonético Internacional apresenta os fonemas presentes nas línguas faladas.
O que é fonética e fonologia?
Fonética e fonologia são ciências, disciplinas ou campos de estudo focados nos sons da língua e em como eles são produzidos. Assim, são a parte da gramática normativa que estuda os fonemas: unidades sonoras mínimas presentes na fala. Tais “sons elementares” (definição de “fonema” do gramático Cegalla), ao se integrarem, formam sílabas e palavras.
É por meio desses sons que você distingue uma palavra da outra. Por exemplo, ao dizer “fato” e “jato”, os sons representados pelas letras “f” e “j” são diferentes. Essas unidades sonoras mínimas da fala são chamadas de fonemas. As letras são sinais gráficos que representam fonemas e, portanto, são usadas na escrita.
Além disso, para produzir os fonemas, nós utilizamos nosso aparelho fonador, composto por nossas fossas nasais, lábios, língua, dentes etc. Por exemplo, quando você diz “pato”, note que seus lábios se unem na produção do som representado por “p”. Já ao pronunciar o som representado por “t”, sua língua encosta em seus dentes superiores.
Portanto, a fonética e a fonologia estudam os fonemas e a forma como eles são produzidos pelo nosso aparelho fonador. Porém, esses dois campos de estudo (fonética e fonologia) são diferenciados. E você vai descobrir qual é essa diferença no próximo tópico. Então, vamos lá!
Diferenças entre fonética e fonologia
A fonética é responsável pela descrição e classificação dos sons produzidos durante a fala. O principal ramo desse estudo é a fonética articulatória. Ela está centrada na articulação fisiológica, ou seja, descreve a passagem de ar pela cavidade bucal ou nasal quando nós pronunciamos uma palavra.
Isso envolve a vibração das pregas vocais e os pontos de articulação, como, por exemplo, lábios, dentes, língua, alvéolos, palato. Você já deve ter notado que, quando falamos, às vezes fechamos os lábios; outras vezes, aproximamos a língua do céu da boca etc. Essas articulações são alvos da fonética articulatória.
Existe também a fonética auditiva. Ela busca verificar como percebemos a fala de alguém em nosso aparelho auditivo. Já a fonética acústica estuda as propriedades físicas dos sons da fala, ou seja, as ondas sonoras. Esses são alguns exemplos de áreas de interesse da fonética.
Na gramática normativa, o estudo da fonética fica centrado na fonética articulatória, a qual, por sua vez, está centrada nos sons produzidos pelo aparelho fonador, formado pelos seguintes órgãos: alvéolos, dentes, cordas ou pregas vocais, epiglote, esôfago, faringe, fossas nasais, glote, lábios, laringe, língua, palato duro, traqueia, úvula e véu palatino.
Já ficou claro que a fonética está muito vinculada ao aspecto físico do som. Já a fonologia é uma ciência, disciplina ou campo de estudo que está focada nos fonemas. Como nos explicam os gramáticos Pasquale e Ulisses Infante, a palavra “fonologia” é formada por elementos gregos: “fono (‘som’, ‘voz’) e log, logia (‘estudo’, ‘conhecimento’)”.
Portanto, fonologia é o estudo dos sons. Tais sons, produzidos na fala, são chamados de “fonemas”. A fonologia estuda a função desses fonemas no sistema linguístico, enquanto a fonética não se preocupa com tal função, já que está focada em como tais fonemas são produzidos pelos falantes de uma língua. Assim, fonética e fonologia são complementares.
Veja só como o gramático Evanildo Bechara distingue fonética de fonologia:
Na atividade linguística, o importante para os falantes é o fonema, e não a série de movimentos articulatórios que o determina. Assim sendo, enquanto a análise fonética se preocupa tão somente com a articulação, a fonológica atenta apenas para o fonema que, reunindo um feixe de traços que o distingue de outro fonema, permite a adequada comunicação linguística.
Leia também: Sintaxe — o estudo das relações das palavras na frase
Fonemas
Já mencionei acima que fonema é a menor unidade sonora da fala. Da união de fonemas, surgem as sílabas, as palavras e as frases. Mas não se esqueça de que fonemas são produzidos durante a fala. E, portanto, são especificados em um alfabeto próprio, chamado de alfabeto fonético.
Já o alfabeto tradicional que conhecemos (composto pelas letras “a”, “b”, “c”, “d” etc.) é usado na escrita, em uma tentativa de representar os fonemas da língua. Ficou claro? Fonema está relacionado à fala. Letra está relacionada à escrita. Dito isso, posso falar para você sobre a classificação dos fonemas.
- Vogais: fonemas sonoros que passam livremente pela boca.
- Semivogais: fonemas átonos (sem força) que apenas acompanham as vogais.
- Consoantes: fonemas produzidos com obstáculos à passagem de ar pela boca.
A seguir, mostro para você uma tabela com a transcrição fonética de vogais, semivogais e consoantes. E faço uma sugestão. Escolha palavras da língua portuguesa e faça a transcrição fonética dessas palavras. Só posso dizer uma coisa: é muito divertido!
Alfabeto Fonético Internacional
As tabelas ou diagramas do Alfabeto Fonético Internacional são um pouco complicados e difíceis de reproduzir aqui sem gerar imensa confusão. Então, vou mostrar os símbolos da forma mais clara possível.
Devo lembrar que é o alfabeto internacional, ou seja, alguns fonemas podem não existir ou não serem frequentes no português brasileiro. Quando isso acontecer, vou indicar com um traço (—).
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VOGAIS |
|
|
FONEMA |
LETRA |
|
/ɞ/ |
— |
|
/ʌ/ |
— |
|
/a/ |
a (boca aberta) |
|
/ɑ/ |
— |
|
/ɐ/ |
a (boca entreaberta) |
|
/e/ |
e |
|
/ɛ/ |
é |
|
/æ/ |
— |
|
/œ/ |
— |
|
/ɜ/ |
— |
|
/ø/ |
— |
|
/ɘ/ |
— |
|
/i/ |
i |
|
/y/ |
— |
|
/ɨ/ |
— |
|
/ɪ/ |
— |
|
/ʏ/ |
— |
|
/ɵ/ |
— |
|
/ɤ/ |
— |
|
/o/ |
o |
|
/ɔ/ |
ó |
|
/ɒ/ |
— |
|
/ɶ/ |
— |
|
/ʉ/ |
— |
|
/ɯ/ |
— |
|
/u/ |
u |
|
/ʊ/ |
— |
|
CONSOANTES |
|
|
FONEMA |
LETRA, DÍGRAFO OU OBSERVAÇÃO |
|
/b/ |
b |
|
/ʘ/ |
— |
|
/ɓ/ |
— |
|
/ʙ/ |
— |
|
/β/ |
— |
|
/k/ |
c (“casa”) e qu (“quilo”). |
|
/d/ |
d |
|
/ɗ/ |
— |
|
/ʄ/ |
— |
|
/ɮ/ |
— |
|
/ɖ/ |
— |
|
/ð/ |
— |
|
/ɟ/ |
— |
|
/f/ |
f |
|
/ɸ/ |
— |
|
/g/ |
g (“gala”). |
|
/ɰ/ |
— |
|
/ɣ/ |
— |
|
/ɢ/ |
— |
|
/ʒ/ |
g (“gelo”) e j (“jato”). |
|
/ɠ/ |
— |
|
/ʛ/ |
— |
|
/ʝ/ |
— |
|
/j/ |
semivogal “i”, apesar de a IPA (International Phonetic Association) considerar como consoante. |
|
/ʟ/ |
— |
|
/l/ |
l |
|
/ɬ/ |
— |
|
/ɭ/ |
— |
|
/ʎ/ |
lh |
|
/m/ |
m |
|
/ɱ/ |
— |
|
/n/ |
n |
|
/ɳ/ |
— |
|
/ɲ/ |
nh |
|
/ŋ/ |
— |
|
/ɴ/ |
— |
|
/p/ |
p |
|
/q/ |
q |
|
/r/ |
r |
|
/ɾ/ |
r |
|
/ɽ/ |
r |
|
/ɹ/ |
r |
|
/ɻ/ |
r |
|
/ʀ/ |
rr |
|
/ʁ/ |
rr |
|
/h/ |
rr |
|
/ɦ/ |
rr |
|
/x/ |
rr |
|
/s/ |
ss |
|
/t/ |
t |
|
/ǀ/ |
— |
|
/ǃ/ |
— |
|
/ǂ/ |
— |
|
/ǁ/ |
— |
|
/ʕ/ |
— |
|
/ħ/ |
— |
|
/χ/ |
— |
|
/ʔ/ |
— |
|
/ʂ/ |
— |
|
/c/ |
— |
|
/ʈ/ |
— |
|
/θ/ |
— |
|
/v/ |
v |
|
/ʋ/ |
— |
|
/w/ |
semivogal “u”, apesar de a IPA (International Phonetic Association) considerar como consoante. |
|
/ʃ/ |
x (“xale”) ou ch. |
|
/ç/ |
— |
|
/z/ |
z (“zinco”, “brasa”, “exíguo”). |
|
/ʐ/ |
— |
Você notou que os símbolos fonéticos estão entre barras? É assim que indicamos que tais símbolos são fonemas. Além disso, o fonema pode ser representado, na língua portuguesa, por uma letra ou um dígrafo. Por fim, você também observou que há diversos fonemas correspondentes à letra “r” e ao dígrafo “rr”.
Fonemas diferentes para o “r” brasileiro indicam sotaques, sutilezas da pronúncia em lugares distintos do Brasil. De forma que a pronúncia de uma mesma palavra pode variar levemente. Por exemplo, uma pessoa gaúcha pode dizer “rrrrico”, vibrando o “r”, enquanto uma pessoa mineira diz “rico”, sem vibrar o “r”.
Uma pessoa do sul do estado de São Paulo pode dizer “porrrta”, vibrando o “r”. Já uma pessoa na região central de Minas Gerais vai dizer “porta”, sem vibrar o “r”. E até a vibração ou não vibração podem sofrer leve alteração de um lugar para o outro. Daí fonemas diferentes correspondentes à letra “r” e ao dígrafo “rr’.
A seguir, veja a transcrição fonológica de algumas palavras do português. Quando usamos o til para indicar nasalização, ele é considerado um sinal diacrítico (usado para marcar uma diferenciação) no Alfabeto Fonético Internacional. Veja só a tabela abaixo.
|
PALAVRA |
TRANSCRIÇÃO FONOLÓGICA |
|
Belo |
/bɛlu/ |
|
Bico |
/biku/ |
|
Bucha |
/buʃa/ |
|
Caso |
/kazu/ |
|
Cheque |
/ʃɛki/ |
|
Cola |
/kɔla/ |
|
Dedo |
/dedu/ |
|
Fala |
/fala/ |
|
Falha |
/faʎa/ |
|
Foca |
/fɔka/ |
|
Fundo |
/fũdu/ |
|
Galo |
/galu/ |
|
Gomo |
/ɡomu/ |
|
Guerra |
/ɡɛʁa/ |
|
Haja |
/aʒa/ |
|
Hora |
/ɔɾa/ |
|
Lento |
/lẽtu/ |
|
Lindo |
/lĩdu/ |
|
Loja |
/lɔʒa/ |
|
Lote |
/lɔtʃi/ |
|
Mau |
/maw/ |
|
Mesa |
/meza/ |
|
Minha |
/miɲa/ |
|
Mito |
/mitu/ |
|
Nulo |
/nulu/ |
|
Pai |
/paj/ |
|
ralo |
/ʁalu/ |
|
Santa |
/sɐ̃ta/ |
|
Sela |
/sɛla/ |
|
Sonda |
/sõda/ |
|
Tela |
/tɛla/ |
|
Tudo |
/tudu/ |
|
Vela |
/vɛla/ |
|
Xarope |
/ʃaɾɔpi/ |
Fontes
ALENCAR, Maria Silvana Militão de. Variação dos fonemas /r/ e /ɾ/ no falar de Fortaleza. Disponível em: https://www.sbpcnet.org.br/livro/57ra/programas/conf_simp/textos/msilvanamilitao.htm.
BECHARA, Evanildo. Moderna gramática portuguesa. 39. ed. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2019.
CEGALLA, Domingos Paschoal. Novíssima gramática da língua portuguesa. 49. ed. São Paulo: Companhia Editora Nacional, 2008.
CIPRO NETO, Pasquale; INFANTE, Ulisses. Gramática da língua portuguesa. 3. ed. São Paulo: Scipione, 2008.
IPA. The International Phonetic Alphabet. Disponível em: https://www.internationalphoneticassociation.org/IPAcharts/common_files/pdfs/pdfs_IPA_charts_E/IPA_Kiel.pdf.
NICOLA, José de; INFANTE, Ulisses. Gramática contemporânea da língua portuguesa. 9. ed. São Paulo: Editora Scipione, 1992.
SACCONI, Luiz Antonio. Nossa gramática: teoria e prática. 26. ed. São Paulo: Atual Editora, 2001.
SILVA, Thaïs Cristófaro. Fonética e fonologia do português. 11. ed. São Paulo: Contexto, 2019.