Coesão textual
A coesão textual é a articulação entre os elementos de um texto. Ela pode ser referencial ou sequencial. Os mecanismos de coesão levam à coerência textual.
Por Warley Souza
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Coesão textual é uma estratégia linguística que permite manter os elementos de um texto conectados. Essa articulação entre os componentes textuais é uma das estratégias responsáveis pela coerência textual, ou seja, o sentido do texto.
Leia também: Diferença entre coesão e coerência
Resumo sobre coesão textual
- A coesão textual faz referência à articulação ou conexão entre os elementos de um texto.
- A coesão referencial ocorre quando um elemento do texto faz referência a outro elemento desse texto:
- artigos: “o amor”, “a vida”, “um amor”, “uma vida”;
- pronomes: “Júnia, aquele livro que está ali é do seu irmão?”;
- numerais: “dois pudins”, “cinco canetas”;
- advérbios: “Júnia, aquele livro que está ali é do seu irmão?”;
- elipse: “Ontem comi lasanha; hoje, pizza”.
- A coesão sequencial apresenta uma relação semântica entre as ideias expressas no enunciado:
- repetição lexical: “O papagaio voou, voou, voou”;
- repetição da estrutura sintática: “Ela quer ver uma comédia. Ele quer ver uma tragédia”;
- paráfrase: “Estou com febre, isto é, minha temperatura está elevada”;
- conectivos: “Permito sua presença, mas fique calado, pois estou cansado da sua voz”.
- A coesão textual é uma das formas de construir a coerência textual, ou seja, o sentido do texto.
O que é coesão textual?
A coesão textual consiste na devida conexão entre elementos de um texto, de forma a tornar tal texto coerente (com sentido). Assim, ela é feita por meio de mecanismos linguísticos que permitem a articulação ou ligação entre os componentes do texto. Quando dizemos que um texto está coeso, isso significa que seus elementos estão harmoniosamente conectados.
A coerência ou sentido de um texto, portanto, também depende de sua coesão. Quando você lê um texto e faz a relação entre seus componentes, isso ajuda na compreensão do que você está lendo. A coesão textual está relacionada à estrutura textual, pois é a relação entre palavras e expressões que permite a coesão.
Elementos extralinguísticos, como, por exemplo, o conhecimento de mundo de quem lê o texto ou a situação de comunicação, não são considerados na coesão textual. Por isso, todas as referências devem ser apontadas no texto e não fora dele.
Observe esta frase:
Seus amigos trabalharam muito, mas continuaram pobres.
Nesse enunciado, o termo “mas” expressa oposição entre dois fatos, já que os amigos continuaram pobres, apesar de trabalharem muito. O uso da conjunção “mas” permite a conexão entre as duas orações (frases com verbo). Aliás, essa é a função de uma conjunção, isto é, conectar elementos de um texto.
Agora veja o mesmo enunciado sem a conjunção “mas”:
Seus amigos trabalharam muito, continuaram pobres.
Você percebe que o sentido do enunciado está comprometido? Afinal, não dá para saber qual a relação entre as duas orações. Quem lê a frase, inevitavelmente, vai perguntar: “E o que uma coisa tem a ver com a outra”? O uso do “mas” dá o sentido para a frase, já que indica que os amigos não enriqueceram por trabalhar.
Veja outra versão da mesma frase:
Seus amigos trabalharam muito, portanto não continuaram pobres.
Ao usar a conjunção “portanto”, seguida do termo “não”, a frase dá a entender que os amigos enriqueceram por trabalhar muito. O que quero que você perceba é que o sentido da frase depende da relação entre os elementos que compõem sua estrutura. Assim, “mas” sugere oposição, enquanto “portanto” tem caráter conclusivo.
Coesão referencial
A coesão referencial ocorre quando um componente do texto faz referência a outro componente do mesmo texto. Desse modo, você pode perguntar: “Esse termo está relacionado a que outro termo?”. E a ligação entre eles é apontada.
Os artigos da língua portuguesa são “a”, “o”, “as”, “os”, “uma”, “um”, “umas”, “uns”. E seu uso é um tipo de coesão referencial:
Uma luz misteriosa apareceu no céu.
A vida é intrigante.
Os fósforos foram acesos na escuridão.
Nos exemplos, “uma” faz referência à “luz”, “a” faz referência à “vida”, já “os” está relacionado a “fósforos”.
Os pronomes também são usados como mecanismos coesivos. Eles substituem ou acompanham um substantivo (termo que nomeia seres ou coisas).
Observe esses enunciados:
Nair ficou assustada com a reação do irmão. Ela tentou disfarçar, sem sucesso.
Nair queria ajudar seu irmão, mas ele não queria sua ajuda.
Esse homem é o irmão de Nair.
Alguma pessoa aqui conhece o irmão de Nair?
Vi o irmão de Nair, o qual estava sendo procurado pela polícia.
Outro mecanismo de coesão referencial é o uso de numeral (um, dois, três etc.):
Pegue os chocolates que estão sobre a mesa da cozinha. Fique com três apenas e dê os outros para o seu irmão.
Observe que o numeral “três” faz referência aos “chocolates”.
O advérbio é um termo que expressa diversas circunstâncias, tais como modo, tempo, lugar etc., e também pode ser usado como mecanismo de coesão:
Morei dois anos em Madri. Lá, fiz grandes amigos.
Note que o advérbio de lugar “lá” faz referência à cidade de Madri.
Só para você perceber a importância da coesão textual e sua relação com a coerência do texto, deixe-me fazer uma pequena alteração na frase:
Morei dois anos em Madri. Aqui, fiz grandes amigos.
Você percebeu que o sentido do enunciado foi alterado? No primeiro exemplo, quem enuncia a frase não está em Madri. Já no segundo exemplo, a pessoa está em Madri, apesar de não viver mais nessa cidade.
Por fim, a elipse é outro mecanismo de coesão referencial. Tal fenômeno linguístico consiste na omissão de um termo, expressão ou oração, que está implícito no enunciado:
A advogada seguia as regras e não admitia exceções.
Veja que o pronome “ela” está implícito na frase:
A advogada seguia as regras e [ela] não admitia exceções.
Tal pronome substitui o substantivo “advogada”, isto é, faz referência a tal substantivo.
Coesão sequencial
A coesão sequencial ocorre quando há uma relação semântica (de sentido) entre partes do enunciado, em uma sequência de ideias. Desse modo, temos uma articulação de ideias, em vez de uma retomada de palavras. Nesse caso, um termo não retoma outro (como na coesão referencial), o que temos é uma ideia sendo conectada a outra.
Isso pode ser feito por meio de repetição lexical, isto é, repetição de palavras:
Os carros subiam, subiam, subiam.
A repetição do verbo “subiam” sugere movimento ascendente prolongado.
Também é possível utilizar a repetição da estrutura sintática, ou seja, de um trecho da frase:
Minha irmã quer ler. Meu irmão quer ver um filme. Meu primo quer dormir.
Note que a estrutura sujeito + verbo “quer” é repetida, de forma a enfatizar o desejo de cada um dos sujeitos (elementos que praticam a ação verbal).
A paráfrase consiste em dizer a mesma coisa, mas com palavras diferentes. Esse recurso linguístico pode ser usado como mecanismo de coesão textual:
Ler é essencial para a formação humana, ou seja, quem não lê é incompleto.
Observe que as orações “ler é essencial para a formação humana” e “quem não lê é incompleto”, apresentam um mesmo sentido. Afinal, se você não recorre a uma ação essencial para a sua formação humana, você é humanamente incompleto. Usamos esse recurso para enfatizar uma ideia ou deixar tal ideia mais clara.
Por fim, o que mais usamos mesmo como mecanismo de coesão sequencial são os conectivos. Eles estabelecem várias relações entre as ideias expressas, de forma a dar sentido ao enunciado. Assim, temos uma sequência de ideias coesas, isto é, conectadas umas com as outras.
Veja só estas frases:
Ajudo você com o dever de casa se você me ajudar com as tarefas domésticas.
[“se” estabelece uma relação de condição entre as partes do enunciado]
Alessandro gritou porque viu uma lagartixa.
[“porque” estabelece uma relação de causa/ consequência entre as partes do enunciado]
Meu cachorro não estava comendo a ração; portanto, emagreceu muito.
[“portanto” estabelece uma relação de conclusão entre as partes do enunciado]
Não tenho fome quando acordo.
[“quando” estabelece uma relação de tempo entre as partes do enunciado]
Segundo a autora, os problemas da educação são de caráter estrutural.
[“segundo” estabelece uma relação de conformidade entre as partes do enunciado]
Existem inúmeros conectivos na língua portuguesa, tais como “além disso”, “e”, “mas”, “ainda que”, “visto que” etc. Cada um deles estabelece uma relação de sentido específica entre partes de um enunciado.
Exemplos de coesão textual
O uso de maquiagem é opcional.
Faz cinco anos que moro no Brasil.
Meu quarto é confortável. Aqui tenho lindos sonhos.
O padeiro começa a trabalhar cedo. Ele faz deliciosos pães.
Não quero que meu sonho impeça os sonhos alheios.
Aquele carro não estava na garagem ontem.
Peça emprestado o caderno de algum colega.
Somos amigos que respeitam o espaço um do outro.
Eu sentia amor; você, ódio.
Ulisses caminhou, caminhou, caminhou, sem chegar a lugar algum.
Judite gosta de maçã. Juliano gosta de laranja. Bete gosta de melancia.
A humanidade é perversa, ou seja, o ser humano é perigoso.
Não vou à festa porque não gosto do aniversariante. Além disso, tenho muita coisa para estudar.
Quero falar com você. E também quero ter uma conversa com sua mãe.
Não gosto de você nem do seu namorado.
Ontem estudei não só Matemática mas também Física.
Comprou um carro vermelho. Porém, ainda não sabe dirigir.
Apesar de falar muito, ele tem muito pouco a dizer.
Não a vi hoje, pois ela está em Guadalajara.
Sofro, logo estou vivo.
Como fazer um texto coeso?
Para fazer um texto coeso, você precisa utilizar os mecanismos coesivos: pronomes, advérbios, elipse e, principalmente, conectivos. Você não pode simplesmente lançar as ideias sem ligação umas com as outras, ou utilizar repetições desnecessárias, como no exemplo a seguir:
O narrador pode ser personagem. O narrador pode ser observador. O narrador pode ser onisciente. O narrador é personagem, participa da história. O narrador observador narra apenas o que observa. O narrador onisciente tem conhecimento completo da história, dos personagens.
Nesse texto, a palavra “narrador” é repetida o tempo inteiro, sem necessidade, e também faltam conectivos. Então, vamos tornar esse texto coeso:
O narrador pode ser personagem, observador ou onisciente. Se for personagem, ele participa da história. Se for observador, narra apenas o que ele observa. Se for onisciente, tem conhecimento completo da história e também dos personagens.
Note que usei “narrador” apenas uma vez. Depois, para me referir a esse substantivo, usei o pronome “ele”. Repeti a estrutura “se for” para enfatizar o aspecto condicional. Além disso, se eu tivesse mantido a frase “narra apenas o que observa”, o enunciado ficaria ambíguo, já que “o que” poderia ser confundido com o sujeito de “observa”.
Por fim, o uso de “e também” mostra que o narrador onisciente tem conhecimento da história e dos personagens. Do contrário, um leitor desatento poderia entender assim: “tem conhecimento completo da história dos personagens”.
Portanto, você precisa conhecer os mecanismos de coesão e utilizá-los, de forma a manter as informações conectadas. Lembre que a coesão do texto ajuda a tornar tal texto coerente, ou seja, com sentido e sem ambiguidades.
Veja outro exemplo de texto sem coesão:
Luciana acordou às nove da manhã. Luciana estava triste. O cãozinho de Luciana morrera ontem. O cãozinho de Luciana estava muito velho. Luciana estava velha. Luciana vivera muito tempo. Luciana estava cansada. Luciana queria viver. O cãozinho de Luciana queria viver.
Não sei você, mas eu, ao ler esse texto sem coesão, fiquei cansado e irritado. Então, vamos torná-lo mais claro e de fácil leitura:
Luciana acordou às nove da manhã. Ela estava triste porque seu cãozinho morrera ontem. Ele estava muito velho. Luciana também estava velha. Ela já vivera muito tempo e estava cansada. Porém, Luciana ainda queria viver. E seu cãozinho também queria.
Observe que eliminei as repetições “Luciana” e “o cãozinho de Luciana”. Em seu lugar, usei os pronomes “ela”, “ele” ou “seu”. Coloquei conectivos como “porque” (explicativo), “também” e “e” (aditivos), “porém” (adversativo, já que mostra uma oposição), “ainda” (temporal). Ao final, optei pela elipse da palavra “viver”.
Quais as diferenças entre coesão e coerência?
Como mostrei acima, a coesão está relacionada a mecanismos linguísticos presentes no texto. Isso quer dizer que os elementos do texto possuem uma ligação entre si.
Ela é importante para a construção de sentido do texto, ou seja, para a coerência textual. Quando digo que um texto é coerente, estou afirmando que ele faz sentido. O sentido é obtido por meio da coesão textual, mas também de fatores extralinguísticos (que estão fora do texto).
Portanto, o conhecimento de mundo de quem lê ou ouve o texto são também importantes para a construção de sentido. Se eu digo “O coelho desapareceu, pois ele tem pés de alface”, você, com certeza, não vai entender o que estou dizendo. Isso porque meu enunciado possui coesão, mas não tem coerência.
E por que não faz sentido? Porque o seu conhecimento de mundo permite que você conclua que coelho não tem pés de alface. Mas se digo que ele desapareceu porque é veloz, você se ampara no fato de coelhos serem associados à velocidade e, por isso, poderem desaparecer logo de vista.
É claro que a situação comunicativa também influencia na coerência. Se a frase “O coelho desapareceu, pois ele tem pés de alface” fizer parte de uma obra literária, tal frase vai fazer sentido dentro do contexto da obra. Por exemplo, o enunciado pode integrar uma história infantil em que um coelho tem pés de alface, os quais causam a invisibilidade.
Leia também: Tipos de coerência textual: semântica, temática, pragmática e estilística
Exercícios sobre coesão
Questão 1
Analise os enunciados abaixo e marque a alternativa em que a coesão textual é feita pela retomada de um termo por outro.
A) Uma vez que mudei de casa, comprei muitos móveis novos.
B) Todos os móveis que construí são duradouros, funcionais e belos.
C) Compramos móveis novos, pois casa nova precisa de coisas novas.
D) Além dos móveis da sala, Márcio vendeu uma cama de casal.
E) Vendi uma mesa centenária, mas perdi todo o dinheiro em seguida.
Resolução:
Alternativa B.
Na frase “Todos os móveis que construí são duradouros, funcionais e belos”, o pronome relativo “que” retoma o termo “móveis”. Já nos outros enunciados, a coesão é feita, principalmente, por conectivos: “uma vez que”, “pois”, “além dos”, “mas”.
Questão 2
Analise este enunciado:
Todo mundo conhece Marta em seu bairro. Ela ficou popular depois que venceu um processo contra a prefeitura de sua cidade, a qual patrocinava música ao vivo, ao ar livre, até à meia-noite, nos finais de semana, em clara perturbação do sossego. A vizinhança estava dividida. Havia quem apoiasse Marta e quem a culpasse pelo fim dos ruidosos concertos populares.
Sobre o texto, é possível afirmar:
I. Apresenta coesão textual referencial ao fazer a retomada de termos.
II. Apresenta coesão textual sequencial ao fazer uma paráfrase.
III. Não apresenta coesão textual, o que compromete a sua coerência.
Está(ão) correta(s) a(s) afirmativa(s):
A) I apenas.
B) II apenas.
C) III apenas.
D) I e III apenas.
E) I, II e III.
Resolução:
Alternativa A.
O texto apresenta os seguintes elementos coesivos: “seu”, “ela”, “depois que”, “sua”, “a qual”, “e”. Elementos como “ela”, “seu” e “sua” fazem retomada de outros termos no texto, característica da coesão referencial. Portanto, a coesão textual permite a coerência do texto, o qual, aliás, não apresenta paráfrase.
Fontes
GUIMARÃES, Elisa. A articulação do texto. 10. ed. São Paulo: Ática, 2011.
JUNIOR, Luis Carlos Viana. Coesão e coerência: discursos da linguística e da mídia. 2013. Monografia (Bacharelado em Letras) – Faculdade de Ciências e Letras, Universidade Estadual Paulista, Araraquara, 2013.
KOCH, Ingedore Villaça. A coesão textual. 22. ed. São Paulo: Contexto, 2010.
KOCH, Ingedore Villaça; ELIAS, Vanda Maria. Ler e compreender: os sentidos do texto. 3. ed. São Paulo: Contexto, 2010.