Paradoxo
O paradoxo (ou oximoro) é uma figura de linguagem, mais especificamente uma figura de pensamento, que consiste na expressão de uma ideia contraditória.
Por Warley Souza
Paradoxo é uma figura de linguagem, mais especificamente uma figura de pensamento. Ela consiste na expressão de uma contradição, como, por exemplo: “A loucura sã é bem-vinda”. Nesse caso, é contraditório dizer que a loucura é sã, já que os dois termos apresentam sentidos opostos. O paradoxo ou oximoro é mais usado em textos literários.
Leia também: Ironia — figura de pensamento que expressa propositalmente o oposto do que é proferido
Resumo sobre o paradoxo
- O paradoxo (ou oximoro) é uma figura de linguagem, mais especificamente uma figura de pensamento. Ela consiste na formulação de uma contradição: “sonho real”, “verdade mentirosa” etc.
- Difere-se da antítese. Enquanto a antítese expressa um contraste (oposição), o paradoxo expressa uma contradição (ato de contradizer-se).
O que é paradoxo?
O paradoxo (ou oximoro) é uma figura de linguagem. Especificamente, é uma figura de pensamento, pois está relacionada a uma aproximação, a uma combinação ou a um contraste de ideias, e consiste na expressão de uma contradição (ato de contradizer-se, isto é, afirmar o contrário do que se disse). Por exemplo, se eu digo que “o silêncio é ensurdecedor”, minha expressão é contraditória.
Afinal, como o silêncio (ausência de som) pode ser ensurdecedor (no sentido de “barulhento”) se esses dois conceitos se opõem e se anulam? Porém, em um contexto conotativo (que expressa mais do que o sentido óbvio), é possível entender, com tal expressão, que o silêncio incomoda.
Por ser uma estratégia conotativa, o paradoxo (também chamado de “oximoro” ou “oxímoro”) é muito utilizado em textos literários e, portanto, mais expressivos. Não é proibido usar paradoxo em texto não literário (funcional, que tem uma utilidade prática). No entanto, textos não literários costumam ser mais claros para não gerar dúvidas em quem lê.
Usamos figuras de linguagem para tornar um texto mais expressivo ou mesmo plurissignificativo (com elementos que possuem mais de um significado). Assim, as figuras de linguagem são conotativas, pois expressam algo que ultrapassa o sentido denotativo, ou seja, o sentido original e óbvio.
O Classicismo é um estilo de época do século XVI. Na língua portuguesa, seu maior representante é o poeta Luís Vaz de Camões. E por que estou falando isso para você? É que o paradoxo foi muito usado nessa época por poetas como Camões para expressar a contradição sentimental.
Veja só esta estrofe de um soneto (sem título) do poeta português:
Sem ti, tudo me enoja e me aborrece;
sem ti, perpetuamente estou passando
nas mores alegrias, mor tristeza.
Observe que o eu lírico (voz que expressa as ideias no poema) diz que está passando a maior tristeza na maiores alegrias. Aí temos um paradoxo. Afinal, como alguém pode sentir tristeza durante a alegria? Porém, o poema sugere que a tristeza advém do fato de a pessoa querida não estar compartilhando dessas alegrias com o eu lírico.
No entanto, o paradoxo não é usado só em versos de uma poesia. Ele também pode ser utilizado em prosa (texto que não apresenta versos). Então, no próximo tópico, vou apresentar para você algumas frases com essa figura de linguagem.
Veja também: Hipérbole — figura de pensamento que intencionalmente remete ao exagero
Exemplos de frase com paradoxo
Descalço, senti o gelo fervente sob meus pés.
Lucas olhou-me com uma sedutora inocência culpada.
Zombaram dele, disseram que ele era um famoso desconhecido.
Meu filho adolescente leu aquele livro chamado “Açúcar amargo”.
Lúcio é daquelas pessoas que valorizam o caos organizado.
Seus jovens olhos cansados revelavam uma criança velha.
Essa ausência presente marcou a vida de minha mãe.
Minha avó sempre dizia que “há males que vêm para o bem”.
Quem foi que disse que “menos é mais”?
Estamos condenados a um futuro ultrapassado.
Seu sucesso foi seu maior fracasso.
Afirmou que nossa união foi o que nos separou.
Pessoas não confiáveis diziam que aquela ditadura era democrática.
A tolice dos sábios está em subestimar os tolos.
Seu ódio amoroso confundia seus rivais.
Foi preenchido pelo vazio existencial.
Tantas certezas duvidosas foram declaradas então.
Tinha um quê de liberdade contida em suas ações.
Sua imperfeição era perfeita em todos os sentidos.
Sentia uma dor prazerosa e viciante.
Qual a diferença entre paradoxo e antítese?
Assim como o paradoxo, a antítese também é uma figura de pensamento. Porém, ela consiste na expressão de termos ou ideias opostas. Por exemplo, ao dizer que “A dor e o prazer fazem parte da existência”, eu fiz a aproximação entre dois termos opostos: “dor” e “prazer”. Por isso, essa frase possui uma antítese.
Portanto, note que a antítese é um contraste, mas não uma contradição. Já o paradoxo pode apresentar contraste, porém, para ser paradoxal, uma frase precisa apresentar contradição. Assim, se eu digo “Um prazer doloroso estava estampado em seus olhos”, temos oposição entre dor e prazer, mas o que define o paradoxo é a contradição “prazer doloroso”. Afinal, se são opostos, como o prazer pode ser dor?
Dessa forma, a antítese é um contraste (oposição). Por sua vez, o paradoxo é uma contradição (ato de contradizer-se ao dizer o oposto do que se disse). A incoerência do paradoxo deixa de existir quando ele é usado como figura de linguagem, para sugerir mais do que o sentido literal ou mais evidente.
Agora que você entendeu a diferença entre antítese e paradoxo, me diga qual das frases abaixo apresenta paradoxo:
Juliana possui uma doçura amarga.
Disse adeus e manteve um triste sorriso nos lábios.
Infeliz alegria toma conta dos insanos.
Minha paixão agora é um fogo frio.
A comida misturava o doce e o amargo.
Tristeza e alegria podem estar presentes em um adeus.
Sentimos o calor do fogo na noite fria.
Tenho certeza de que você identificou os seguintes paradoxos (contradições): “doçura amarga”, “triste sorriso”, “infeliz alegria” e “fogo frio”. Já as oposições “doce x amargo”, “tristeza x alegria” e “calor x fria” são antíteses, pois expressam contraste, mas não contradição.
Acesse também: Antítese e paradoxo — mais detalhes sobre essas figuras de pensamento
Exercícios resolvidos sobre paradoxo
Questão 1
O paradoxo é uma figura de linguagem caracterizada pela contradição. Sabendo disso, analise os enunciados abaixo e assinale a alternativa que apresenta esse recurso estilístico.
A) Não suporto o perfume fedorento que meu irmão usa.
B) Só valorizou a vida quando se aproximou da morte.
C) Morro de tristeza toda vez que você vai embora.
D) O que você disse é uma completa inverdade.
E) A Lua e o Sol dançavam alegres no espaço.
Resolução:
Alternativa A.
Na alternativa A, a expressão “perfume fedorento” é contraditória, já que o perfume é usado para eliminar ou se opor ao fedor. Na alternativa B, “vida” e “morte” são oposições que se configuram em uma antítese. Na alternativa C, “morro de tristeza” é uma hipérbole (exagero). Na alternativa D, “inverdade” é eufemismo para “mentira”, pois ameniza a declaração. Por fim, na alternativa E, “Lua” e “Sol” são antíteses, já que fazem oposição entre noite e dia. A frase também apresenta personificação desses elementos.
Questão 2
As canções que você fez pra mim
Hoje eu ouço as canções que você fez pra mim
Não sei por que razão tudo mudou assim
Ficaram as canções e você não ficou.
Esqueceu de tanta coisa que um dia me falou
Tanta coisa que somente entre nós dois ficou
Eu acho que você já nem se lembra mais.
É tão difícil olhar o mundo e ver o que ainda existe
Pois sem você meu mundo é diferente
Minha alegria é triste.
[...]
CARLOS, Roberto; CARLOS, Erasmo. As canções que você fez pra mim. In: BETHÂNIA, Maria. As canções que você fez pra mim. Rio de Janeiro: Polygram, 1993.
Essa famosa letra de música apresenta um paradoxo:
A) no verso 1.
B) no verso 3.
C) no verso 5.
D) no verso 7.
E) no verso 9.
Resolução:
Alternativa E.
O verso “Minha alegria é triste” expressa uma contradição. Afinal, como aquilo que é alegre pode ser triste, já que os dois conceitos se contradizem e se anulam? Temos, então, um paradoxo.
Fontes
BECHARA, Evanildo. Moderna gramática portuguesa. 40. ed. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2024.
CAMÕES, Luís Vaz de. Sonetos. Disponível em: https://humanitas.ufrn.br/wp-content/uploads/2025/02/Sonetos.pdf.
CEGALLA, Domingos Paschoal. Novíssima gramática da língua portuguesa. 49. ed. São Paulo: Companhia Editora Nacional, 2020.
NICOLA, José de; INFANTE, Ulisses. Gramática contemporânea da língua portuguesa. 15. ed. São Paulo: Scipione, 1999.
SACCONI, Luiz Antonio. Nossa gramática: teoria e prática. 26. ed. São Paulo: Atual Editora, 2001.