Lítotes
A lítotes é uma figura de linguagem, mais especificamente uma figura de pensamento, que consiste em afirmar algo por meio da negação de seu contrário.
Por Warley Souza
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Lítotes é uma figura de linguagem, mais especificamente uma figura de pensamento, que consiste em afirmar algo por meio da negação de seu contrário, como, por exemplo: “Você não é nada bruta”. Nesse caso, quem expressa o enunciado está dizendo que a interlocutora é delicada. O uso dessa figura de linguagem serve para suavizar a informação, para fazer ironia ou para destacar uma qualidade.
A lítotes não pode ser confundida com o eufemismo, que também serve para suavizar uma informação. Porém, essa figura de pensamento consiste em trocar uma expressão ofensiva ou incômoda por outra mais amena: “Aquele homem tem uma conduta duvidosa”. Nessa frase, a expressão “é desonesto” é substituída por “tem uma conduta duvidosa”.
Leia também: Hipérbole — figura de linguagem que se caracteriza pelo exagero proposital
Resumo sobre lítotes
- A lítotes é uma figura de pensamento que consiste em afirmar algo por meio da negação de seu contrário:
- “não é bobo”: é esperto;
- “não é interessante”: é desinteressante;
- “não é alto”: é baixo.
- A lítotes é usada para:
- suavizar uma informação: “Esse filme não é muito bom” (é ruim);
- construir uma ironia: “Sua casa não é lá uma mansão!” (é um barraco);
- enfatizar uma qualidade: “Seu amor não é pequeno” (é um amor grande).
- A lítotes não pode ser confundida com o eufemismo.
- O eufemismo é uma figura de pensamento que consiste em usar termos ou expressões que suavizam a mensagem:
- “dormiu o sono eterno”: morreu;
- “pessoa de posses”: rico;
- “secretário do lar”: empregado doméstico.
O que é lítotes?
A lítotes é uma figura de linguagem, mais especificamente uma figura de pensamento, que consiste em afirmar algo por meio da negação de seu contrário. A definição parece complicada, não é mesmo? Então, vou mostrar um exemplo para você entender. Você vai ver que construir uma lítotes é bem simples.
Como você pode ver, Álvaro não é magro.
Voltemos à definição. A lítotes consiste em afirmar algo (“Álvaro é gordo”) por meio da negação de seu contrário (“não é magro”). O contrário de “gordo” é “magro”. Ao negar o contrário de “gordo” (“não é magro”), a pessoa está dizendo que Álvaro é gordo.
Veja outros exemplos de lítotes:
Você acha que Bianca não é feia, mas eu discordo.
Esse copo não está vazio, e você continua pedindo mais.
Celina não é honesta como dizem por aí.
Assim, quem diz tais frases está afirmando, por meio de lítotes, que Bianca é bonita, que o copo está cheio e que Celina é desonesta.
No caso da lítotes, negamos uma ideia para fazer uma afirmação. Desse modo, não somos grosseiros, já que fazemos uma afirmação de modo indireto. Em vez de dizer que você é insensível, eu digo que você “não é sensível”.
Isso, de alguma maneira, ameniza a informação negativa. Porém, a depender do contexto, o uso da lítotes pode ser irônico. A ironia é outra figura de pensamento. Ela consiste em afirmar o contrário do que se quer dizer, de forma a fazer uma crítica ou zombaria. Por exemplo, ao dizer para alguém caótico “Você é tão organizado!”, eu estou sendo irônico.
Afinal, eu quero dizer o contrário. Porém, a situação, a forma de eu falar, dá a entender que estou sendo irônico, que estou zombando ou criticando a pessoa. Nesse mesmo contexto, se eu digo “Você não é nada organizado!”, o meu tom crítico denota ironia. Então, usei uma lítotes com intuito irônico.
O mesmo acontece se digo “Você não é nada inocente!”, de forma a mostrar que a pessoa é esperta e se faz de inocente. Nesse exemplo, também utilizei a lítotes com função irônica. Isso é diferente de dizer apenas “Você não é corajosa”, pois aí há uma afirmação, sem o tom irônico. Isso porque a ironia depende bastante do contexto e da forma como a pessoa diz a frase, além de seus gestos.
Por fim, a lítotes também pode ser usada para colocar ênfase em uma qualidade. Por exemplo, ao dizer “Ela não é covarde”, enfatizo o fato de que ela é corajosa. Portanto, essa figura de linguagem é usada para amenizar ou enfatizar uma ideia, de forma indireta, além de poder ser utilizada na construção de uma ironia.
Frases com lítotes
Todos sabem que não sou alto.
A minha mágoa não é pequena.
Esse caminho não é curto.
As mulheres da minha família não são fracas.
Os homens da minha família não são grosseiros.
As sacolas que estou carregando não estão nada leves.
O resultado do exame não foi satisfatório.
Pode entrar, pois a porta não está fechada.
Esse arroz que você fez não está cozido!
As pessoas do seu entorno não eram amigáveis.
Quando jovem, ele não era imprudente.
Helvécio, o jogo de xadrez não é chato.
Os tios dela não são pobres.
Ivã, seu comportamento não está certo.
O ser humano não é perfeito.
Há coisas que não são visíveis.
Minhas tias não são agradáveis.
Esse tipo de pessoa não é atraente.
Minhas colegas de classe não são antipáticas.
Aquele filme não é nada mau.
Quais as diferenças entre lítotes e eufemismo?
O eufemismo é outra figura de pensamento, a qual consiste em amenizar ou suavizar uma declaração. Essa é a única função do eufemismo, diferentemente da lítotes, que é usada para suavizar uma ideia, mas também pode ser utilizada para fazer uma ironia. Além disso, a estrutura da lítotes e do eufemismo são diferentes e únicas.
Para criar uma lítotes, eu preciso negar o contrário do que estou afirmando:
- é mau: não é bom;
- é burro: não é inteligente;
- é triste: não é alegre;
- é sincero: não é falso;
- é altruísta: não é egoísta;
- é fiel: não é infiel.
Por sua vez, o eufemismo consiste em substituir uma palavra ou uma expressão mais ofensiva por outra menos ofensiva:
- feio: desprovido de beleza;
- mentir: faltar com a verdade;
- gordo: com excesso de peso;
- velho: estar na terceira idade;
- morrer: descansar em paz;
- roubo: enriquecimento ilícito.
Para marcar a diferença entre essas duas figuras de pensamento, vou apresentar duas versões de um mesmo enunciado, uma com eufemismo e outra com lítotes, nessa ordem:
Meu filho é desprovido de beleza.
Meu filho não é bonito.
Minha amiga está com excesso de peso.
Minha amiga não está magra.
Meu irmão é da terceira idade.
Meu irmão não é novo.
Portanto, “o filho é feio”, “a amiga é gorda”, “o irmão é velho”. Nesses casos, usar o eufemismo ou a lítotes impede que sejamos grosseiros ou incômodos. Afinal, como dizia meu avô, “as palavras podem machucar”.
Veja também: Eufemismo — mais detalhes sobre essa figura de pensamento
Exercícios resolvidos sobre lítotes
Questão 1
Analise estes enunciados:
I- Olhou o quadro na parede e disse que ele não era ruim.
II- A advogada foi convidada a deixar o cargo após suas declarações.
III- Meu irmão disse que minha roupa era inadequada para a situação.
Apresenta lítotes a(s) frase(s):
A) I apenas.
B) II apenas.
C) III apenas.
D) I e III apenas.
E) I, II e III.
Resolução:
Alternativa A.
O primeiro enunciado apresenta a lítotes “não era ruim” (era bom). O segundo enunciado apresenta o eufemismo “foi convidada a deixar o cargo” (foi demitida). Por sua vez, o terceiro é denotativo, pois não apresenta figura de linguagem.
Questão 2
Todas as frases abaixo apresentam lítotes, EXCETO:
A) Saber que meu amigo não é um tolo foi um alívio.
B) Não ser educado com as pessoas é um grande defeito.
C) Justino era otimista, mas agora é um pessimista.
D) Se você acha que o lago não é fundo, está enganada.
E) Chego cedo porque minha escola não é longe de casa.
Resolução:
Alternativa C.
São lítotes: “não é um tolo” (é sábio), “não ser educado” (ser rude), “não é fundo” (é raso), “não é longe” (é perto).
Fontes
CEGALLA, Domingos Paschoal. Novíssima gramática da língua portuguesa. 49. ed. São Paulo: Companhia Editora Nacional, 2020.
SACCONI, Luiz Antonio. Nossa gramática: teoria e prática. 26. ed. São Paulo: Atual Editora, 2001.