Terceira geração do romantismo
A terceira geração do romantismo também pode ser chamada de geração condoreira. Tinha como uma de suas principais críticas a questão da escravidão.
Por Mariana Carvalho Machado Cortes
A terceira geração do romantismo também é chamada de geração condoreira, pois faz menção ao senso de liberdade que é possível perceber nesse momento literário. As obras dessa época exploraram problemas sociais, principalmente, a necessidade de abolição da escravatura, assim, tal movimento foi muito conhecido por ser abolicionista. A poesia dessa época não era apenas um reflexo da introspecção do sujeito, mas tinha uma função social. O principal autor dessa época no Brasil foi Castro Alves, e sua obra mais conhecida foi “O Navio Negreiro”.
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Resumo sobre a terceira geração do romantismo
- A terceira geração do romantismo tinha como principal temática os problemas sociais, principalmente a escravidão.
- Ainda nessa época havia poemas amorosos, porém, mais distantes da idealização típica do ultrarromantismo.
- As críticas sociais eram construídas por meio de grandes apelos emocionais para impactar o leitor.
- Houve também a recuperação de ideias típicas da Revolução Francesa.
- Na forma, era explorada a musicalidade dos versos.
- No Brasil, o aprofundamento das discussões sobre as questões sociais, especialmente a defesa da abolição da escravatura, foi essencial para a promoção do movimento.
- A proclamação de repúblicas devido à queda de monarquias e a força de ideais vindos da Revolução Francesa criaram uma geração romântica consciente das questões sociais que a circundavam.
- São autores importantes dessa geração Castro Alves e Sousândrade.
- São obras importantes dessa geração: “O Navio Negreiro”, “Espumas flutuantes” e o “Guesa errante”.
Características da terceira geração do romantismo
- Temática social: enquanto a segunda geração romântica voltava-se para temas mais introspectivos, a terceira geração começou a abordar temas relacionados a problemas da sociedade da época. Assim, a literatura de tal geração adquire um papel social. Devido a isso, também é chamada de movimento pré-realista.
- Antiescravocrata: o tema principal explorado nessa geração literária, especialmente no Brasil, foi a crítica ao regime escravocrata da época. Essa época também foi chamada de geração condoreira, que aludia a um pássaro, símbolo da liberdade, o que se relacionava à defesa da libertação dos escravizados.
- Abordagem sentimental: para que a abordagem de tais temas sociais fossem efetivas, principalmente a crítica à escravidão, ainda era explorado o sentimentalismo na literatura, como é próprio do romantismo. Assim, os leitores podiam se impactar com os problemas da época.
- Retorno a ideais da Revolução Francesa: devido ao direcionamento da terceira geração aos problemas sociais, convém um retorno à defesa dos princípios da Revolução Francesa de liberdade, igualdade e fraternidade. Não é por acaso que o símbolo desse momento romântico é um condor, um símbolo de liberdade. Devido a tais ideias, retoma-se como inspiração a obra de Victor Hugo, já que nelas é possível perceber uma visão crítica sobre a sociedade, ainda permeada por uma carga emocional. Assim, a terceira geração também pode ser chamada de geração hugoana.
- Distanciamento da idealização: outro motivo que leva os estudiosos a chamarem a terceira geração romântica de hugoana é o fortalecimento de uma visão mais crítica sobre os problemas sociais que os circundam. Dessa maneira, a idealização dos conceitos já não é tão patente nesse momento, até mesmo em relação à representação da mulher. É possível, inclusive, ver poemas em que a relação do eu lírico com a sua amada se mostra de forma mais concreta.
- Musicalidade nos versos: em relação à forma na literária, nota-se uma intensificação da musicalidade, que ocorre pela adoção de rimas internas, a qual aprimora a sonoridade dos versos, de maneira a aprofundar o lirismo. Nessa época, houve o hábito de musicalizar os poemas, o que explorava o sentimento na poesia.
Terceira geração do romantismo no Brasil
Entre 1860 e 1870, o Brasil passou por mudanças políticas intensas e turbulentas devido ao enfraquecimento do regime monárquico. Além disso, a discussão sobre a necessidade de abolição da escravatura começou a tomar força. Entre os estudantes, principalmente de faculdades de Direito de São Paulo, as ideias vindas desse contexto se agitavam, o que fomentou a criação de obras literárias frutos desse momento.
Assim, houve um desenvolvimento da vida cultural da época, o que foi promovido ainda mais pela inauguração de vias férreas e, em 1874, do cabo telegráfico submarino, o que permitiu um maior contato com notícias europeias. Além disso, foram fundadas (ou aprimoradas) novas faculdades e houve um fortalecimento da imprensa e das editoras de livros. Dessa forma, as ideias exploradas nesse momento nas obras românticas ganharam força no Brasil.
O que se pode perceber, então, é que a terceira geração do romantismo chega ao Brasil com um forte ideal abolicionista, já que era uma grande demanda no país na época. Por isso, o grande escritor representativo desse período é Castro Alves, cuja obra mais famosa, “Navio negreiro”, é um forte exemplo da importância conferida ao tema nessa época.
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Autores da terceira geração do Romantismo
- Sousândrade: o autor começou no ultrarromantismo, mas também criou obras pertencentes à terceira. A sua forma subversiva e seu olhar crítico (e, até mesmo, à frente do seu tempo) sobre a América foram coerentes com a fase condoreira. O escritor fez uma obra única ao demonstrar grande domínio com a língua na construção de sua poesia.
- Castro Alves: tinha uma visão social de cunho messiânico que fazia parte da construção de suas obras. Escreveu diversos poemas que denunciavam problemas sociais, muitos com grande beleza plástica, cheios de imagens raras e metáforas impactantes e expressivas, que funcionam como um ato de afirmação vital. Seus versos dinamizaram por meio do contraste e da antítese. Dessa maneira, pôde expor a sua visão crítica sobre o mundo e sobre os homens, por meio de uma abordagem humanitária e social. Sua principal temática girou em torno do problema dos escravizados, o que fez da sua obra uma força dos movimentos abolicionistas.
Obras da Terceira geração do Romantismo
- Navio Negreiro: escrito por Castro Alves, o Navio Negreiro é uma das obras mais emblemáticas do romantismo. Trata-se de um poema épico que retrata homens escravizados sendo transportados em um navio negreiro em condições degradantes. As cenas descritas de forma impactante e as construções metafóricas que ilustram o horror do cenário (sendo a mais emblemática a comparação com o inferno de Dante) são características que fizeram a obra ganhar tamanha importância na terceira geração.
- Espumas flutuantes: essa foi a única obra de Castro Alves que foi publicada em vida. Apesar de a obra focar em uma temática amorosa, a qual é desenvolvida principalmente na segunda geração, a abordagem tomada pelo escritor é típica da terceira, uma vez que o eu lírico não idealiza a sua amada, mas estabelece relações que se concretizam, o que é uma característica típica do condoreirismo.
- Guesa errante: escrito por Sousândrade, a obra reflete problemas do contexto de sua época, por meio de um poema narrativo que estabelece metáforas reflexivas. A narrativa estabelece uma dicotomia entre o divino e o humano, o que dialoga com o gênero épico. A linguagem é enriquecida com neologismos, com analogias e com a construção única do narrador.
Poemas da terceira geração do romantismo
IV
Era um sonho dantesco... o tombadilho
Que das luzernas avermelha o brilho.
Em sangue a se banhar.
Tinir de ferros... estalar de açoite...
Legiões de homens negros como a noite,
Horrendos a dançar…
Negras mulheres, suspendendo às tetas
Magras crianças, cujas bocas pretas
Rega o sangue das mães:
Outras moças, mas nuas e espantadas,
No turbilhão de espectros arrastadas,
Em ânsia e mágoa vãs!
E ri-se a orquestra irônica, estridente...
E da ronda fantástica a serpente
Faz doudas espirais ...
Se o velho arqueja, se no chão resvala,
Ouvem-se gritos... o chicote estala.
E voam mais e mais...
Presa nos elos de uma só cadeia,
A multidão faminta cambaleia,
E chora e dança ali!
Um de raiva delira, outro enlouquece,
Outro, que martírios embrutece,
Cantando, geme e ri!
No entanto o capitão manda a manobra,
E após fitando o céu que se desdobra,
Tão puro sobre o mar,
Diz do fumo entre os densos nevoeiros:
"Vibrai rijo o chicote, marinheiros!
Fazei-os mais dançar!..."
E ri-se a orquestra irônica, estridente…
E da ronda fantástica a serpente
Faz doudas espirais...
Qual um sonho dantesco as sombras voam!...
Gritos, ais, maldições, preces ressoam!
E ri-se Satanás!...
Navio negreiro é um poema épico dividido em seis partes. Na quarta parte, a metáfora com o inferno de Dante torna-se assumida já no primeiro verso. A descrição com tamanha força sensorial do cenário, com metáforas imagéticas e sonoras intensas, contribui para a criação de uma cena infernal, e as pessoas são descritas em uma situação degradante.
Há, também, uma analogia, com uma orquestra de horrores na qual o maestro rege os gritos e os choros dos escravizados e na qual a dança é forçada pelo balanço do barco e pelo lançar do chicote. O último verso encerra a quarta parte com a retomada da metáfora sobre o inferno ao aludir sobre a alegria de Satanás ao ver tal cena grotesca. Para uma sociedade ainda tão religiosa da época, tal imagem é impactante e serve realmente para comover e gerar repulsa nos leitores acerca da situação da escravidão no Brasil.
Amar e ser Amado
Amar e ser amado! Com que anelo
Com quanto ardor este adorado sonho
Acalentei em meu delírio ardente
Por essas doces noites de desvelo!
Ser amado por ti, o teu alento
A bafejar-me a abrasadora frente!
Em teus olhos mirar meu pensamento,
Sentir em mim tu’alma, ter só vida
P’ra tão puro e celeste sentimento:
Ver nossas vidas quais dois mansos rios,
Juntos, juntos perderem-se no oceano —,
Beijar teus dedos em delírio insano
Nossas almas unidas, nosso alento,
Confundido também, amante — amado —
Como um anjo feliz... que pensamento!?
Apesar de o poema tratar sobre o amor, tema frequente do ultrarromantismo, a abordagem se mostra diferente, uma vez que, na terceira geração, não há a valorização de uma amor idealizado, mas sim o desejo da concretização desse sentimento. Isso se torna claro já no título, que exalta um amor que se manifesta na reciprocidade de um relacionamento.
Além disso, há um tom erótico que aprofunda a concretização no contato entre o eu lírico e a mulher amada. O poema ainda encerra colocando em dúvida a questão da idealização ao finalizar o último verso com um ponto de exclamação e um ponto de interrogação.
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Exercícios sobre terceira geração do romantismo
1. Assinale a alternativa correta sobre a terceira geração do romantismo:
a) Preocupava-se com o retrato fiel da realidade e criticava os comportamentos da sociedade da época.
b) Em suas obras, havia um sentimento nacionalista e, no Brasil, uma valorização da natureza e a construção do índio como herói nacional.
c) Era caracterizada pela exacerbação dos sentimentos, pela melancolia e pela idealização amorosa.
d) Também chamada de condoreira, criticava problemas sociais, principalmente a questão da escravatura da época.
Gabarito: D.
A letra A fala das características do realismo. A letra B fala das características da primeira geração do eomantismo; a letra C, da segunda; e a letra, por fim, da terceira geração.
2. (Cespe)
Navio Negreiro
Castro Alves
Era um sonho dantesco... O tombadilho
Que das luzernas avermelha o brilho,
Em sangue a se banhar.
Tinir de ferros... estalar do açoite...
Legiões de homens negros como a noite,
Horrendos a dançar...
Negras mulheres, suspendendo às tetas
Magras crianças, cujas bocas pretas
Rega o sangue das mães:
Outras, moças... mas nuas, espantadas,
No turbilhão de espectros arrastadas,
Em ânsia e mágoas vãs.
Presa nos elos de uma só cadeia,
A multidão faminta cambaleia,
E chora e dança ali!
Um de raiva delira, outro enlouquece...
Outro, que de martírios embrutece,
Cantando, geme e ri!
No entanto o capitão manda a manobra
E após, fitando o céu que se desdobra
Tão puro sobre o mar,
Diz do fumo entre os densos nevoeiros:
"Vibrai rijo o chicote, marinheiros!
Fazei-os mais dançar!..."
Com base no poema apresentado acima, assinale a opção correta.
a) O estilo, a seleção lexical e a sintaxe do poema prenunciam características do modernismo literário.
b) Por focalizar um problema social, o poema é predominantemente dissertativo.
c) Da temática do poema permite-se concluir que se trata de um exemplo de poesia condoreira, em que a emoção é utilizada para reforçar a denúncia que se pretende empreender.
d) O esquema de rimas apresentado no poema pode ser representado por AABBCC.
Gabarito: C.
A letra A está incorreta, pois as características não se relacionam ao modernismo, já que remete a um poema épico e o modernismo não costumava se prender a formas poéticas já consagradas. A letra B está incorreta, pois o poema não é dissertativo. Nessa parte, há um teor mais descritivo. A letra C está correta. A letra D está incorreta, pois o esquema de rimas não é emparelhado.
Fontes
CÂNDIDO, Antônio. O Romantismo no Brasil. São Paulo: Humanistas- FFLCH-USP, 2002.
MOISÉS, Massaud. História da Literatura Brasileira: das origens do romantismo. São Paulo: Cultrix, 2001.