Estilística

Texto:

Metonímia



A metonímia é uma figura de linguagem ou de palavra caracterizada pela substituição de um termo por outro, havendo entre eles algum tipo de ligação. Desse modo, pode haver a substituição de parte pelo todo, qualidade pela espécie, singular pelo plural, matéria pelo objeto, indivíduo pela classe, autor pela obra, possuidor pelo possuído, lugar pelo produto, efeito pela causa, continente pelo conteúdo, instrumento pelo agente, coisa pela sua representação, inventor pelo invento e concreto pelo abstrato.

A metáfora também é uma figura de palavra, mas, ao contrário da metonímia, indica uma comparação implícita no enunciado. Já a sinédoque é uma metonímia em que a substituição dos termos, especificamente, está atrelada ao conceito de extensão, como a parte pelo todo, e não de analogia, caracterizada, por exemplo, na substituição do autor pela obra.

Leia também: Eufemismo – figura de linguagem que atenua determinada mensagem

Exemplos de metonímia

A expressão “beber uma garrafa” é uma metonímia.
A expressão “beber uma garrafa” é uma metonímia.

Metonímia é uma figura de linguagem ou de palavra que consiste na substituição de uma palavra ou expressão por outra, havendo entre elas algum tipo de ligação. Desse modo, é possível apontar a metonímia nas seguintes frases:

  • O fazendeiro precisava de muitos braços para o trabalho daquela semana.
    (O fazendeiro precisava de muitas pessoas para o trabalho daquela semana.)

  • Assistimos a um Godard hoje.
    (Assistimos a um filme de Jean-Luc Godard hoje.)

  • Bebeu uma garrafa de suco e ainda queria mais.
    (Bebeu todo o suco da garrafa e ainda queria mais.)

  • Em muitas ocupações, a mulher ainda ganha menos do que o homem.
    (Em muitas ocupações, as mulheres ainda ganham menos do que os homens.)

  • Vou ao barbeiro uma vez por mês.
    (Vou à barbearia uma vez por mês.)

Tipos de metonímia

A substituição pode realizar-se das seguintes maneiras:

  • A parte pelo todo:

Descobriu que Pedro é um coração amargo e cheio de maldade.
(Descobriu que Pedro é uma pessoa amarga e cheia de maldade.)

  • O autor pela obra:

Li Machado de Assis, pela primeira vez, aos 15 anos de idade.
(Li um livro de Machado de Assis, pela primeira vez, aos 15 anos de idade.)

  • O continente pelo conteúdo:

Comeu dois pratos de canjica na noite de São João.
(Comeu a canjica que estava nos dois pratos, na noite de São João.)

  • O singular pelo plural:

O francês é educado.
(Os franceses são educados.)

  • O possuidor pelo possuído:

João sabe que vou ao cabeleireiro todas as quintas-feiras, mas disse que não avisei aonde ia.
(João sabe que vou ao salão de beleza todas as quintas-feiras, mas disse que não avisei aonde ia.)

  • O lugar pelo produto:

Maria não gostava de champanhe, ela preferia cerveja.
(Maria não gostava do vinho produzido na região de Champagne, na França, ela preferia cerveja.)

  • O concreto pelo abstrato:

Use a cabeça e pare de depender dos outros.
(Use a inteligência e pare de depender dos outros.)

A metonímia apresenta um sentido figurado, e não literal.
A metonímia apresenta um sentido figurado, e não literal.
  • O efeito pela causa:

O bebê aspirou a vida pela primeira vez.
(O bebê aspirou o oxigênio pela primeira vez.)

  • O instrumento pelo agente:

Edna é uma volante de primeira categoria.
(Edna é uma motorista de primeira categoria.)

  • A coisa pela sua representação:

A minha bandeira é justa e necessária.
(A minha luta é justa e necessária.)

  • O inventor pelo invento:

Amanda e Rodolfo compraram uma Ferrari.
(Amanda e Rodolfo compraram um carro da marca fundada por Enzo Ferrari.)

  • A qualidade pela espécie:

Os imortais do Olimpo foram adorados pelos gregos.
(Os deuses do Olimpo foram adorados pelos gregos.)

  • A matéria pelo objeto:

Encha a lata, Dionísio, e não desperdice nenhuma gota de água.
(Encha o recipiente, Dionísio, e não desperdice nenhuma gota de água.)

  • O indivíduo pela classe:

Hoje nasceu mais um Van Gogh.
(Hoje nasceu mais um pintor/artista.)

Leia também: Hipérbole – figura de linguagem que agrega sentido de intensidade e exagero

Metáfora e metonímia

A metáfora também é uma figura de palavra. No entanto, ela ocorre quando, no enunciado, há uma comparação implícita. Por exemplo:

O livro é o paraíso.

Nessa metáfora, o livro é comparado ao paraíso, mas de forma implícita, já que não foi usada uma conjunção comparativa.

“O sol há de brilhar mais uma vez
A luz há de chegar aos corações”

Já nesses versos da letra da música Juízo final, de Nelson Cavaquinho (1911-1986) e Élcio Soares, gravada em 1973 — portanto, em um contexto de ditadura militar —, “sol” e “luz” são metáforas. Nesse caso, o “sol” está sendo comparado à “liberdade” e a “luz”, ao “amor”.

Autorretrato com turbante branco (1881-1882), obra de Paul Cézanne (1839-1906).
Autorretrato com turbante branco (1881-1882), obra de Paul Cézanne (1839-1906).

No caso da metonímia, não ocorre comparação, mas sim uma substituição de um termo por outro relacionado:

Comprei um Cézanne.

Nesse exemplo, houve a substituição do autor pela obra. Assim, o enunciador quer dizer que comprou uma tela de Paul Cézanne (1839-1906), e não que comprou o pintor francês.

Havia trezentas cabeças de gado.

Já nesse segundo exemplo, é possível perceber a substituição da parte pelo todo, isto é, o enunciado diz que havia trezentos bois, e não que havia trezentas cabeças de boi. Para saber mais sobre a figura de linguagem que expressa uma comparação implícita, leia: metáfora.

Metonímia e sinédoque

A sinédoque é uma metonímia associada ao conceito de extensão: parte pelo todo, qualidade pela espécie, singular pelo plural, matéria pelo objeto, indivíduo pela classe. Assim, a sinédoque não abrange os casos em que há apenas uma relação entre os termos: autor pela obra, possuidor pelo possuído, lugar pelo produto, efeito pela causa, continente pelo conteúdo, instrumento pelo agente, coisa pela sua representação, inventor pelo invento, concreto pelo abstrato.

Vamos retomar este exemplo de metonímia:

Descobriu que Pedro é um coração amargo e cheio de maldade.

Concluímos, anteriormente, que o enunciador descobriu que Pedro é uma pessoa amarga e cheia de maldade. Assim, nesse enunciado, há uma relação de extensão, isto é, uma ampliação do coração para o indivíduo como um todo, que seria amargo e cheio de maldade. Portanto, esse tipo de metonímia pode ser chamado também de sinédoque.

Retomemos este segundo enunciado:

Li Machado de Assis, pela primeira vez, aos 15 anos de idade.

Entendemos que alguém leu um livro de Machado de Assis, pela primeira vez, aos 15 anos de idade. Nesse caso, não há uma ideia de extensão, mas apenas uma relação entre o autor e sua obra, ou seja, o indivíduo pode ser a extensão de seu coração, ou a amargura e a maldade podem estender-se do coração para a pessoa como um todo. No entanto, a obra não é extensão de seu autor, pois apenas está relacionada a ele.

Veja também: Ambiguidade – construção linguística que expressa duplo sentido

A metonímia é uma figura de linguagem muito utilizada no nosso cotidiano.
A metonímia é uma figura de linguagem muito utilizada no nosso cotidiano.

Exercícios resolvidos

Questão 1 - Analise as frases a seguir e marque a alternativa em que se verifica a presença de uma metonímia.

A) São órgãos do corpo humano, entre outros, a boca, os olhos e o coração.

B) Minha cara amiga, se existe o bem, parece-me óbvio que também existe o mal.

C) O magistrado fumou um havana enquanto esperava o término da conferência.

D) Os amigos mantinham a recente tradição de ler um poema antes de sair de casa.

E) Na noite fria e escura, um cheiro de pão quentinho espalhava-se pelo ar.

Resolução

Alternativa C. O termo “havana” é uma metonímia que indica a substituição do lugar pelo produto, pois se refere ao charuto cubano produzido em Havana.

Questão 2 - Leia o texto abaixo:

Meu ser, que voava nas luzes da festa,
Qual pássaro bravo, que os ares agita,
Eu vi de repente cativo, submisso
Rolar prisioneiro
Num laço de fita.

Na selva sombria de tuas madeixas,
Nos negros cabelos da moça bonita,
Fingindo a serpente qu’enlaça a folhagem,
Formoso enroscava-se
O laço de fita.

Nesse fragmento do poema de Castro Alves, poeta romântico brasileiro, é possível apontar uma metonímia:

A) no verso 1.

B) no verso 3.

C) no verso 5.

D) no verso 7.

E) no verso 9.

Resolução

Alternativa C. A expressão “laço de fita” é uma metonímia (ou sinédoque), já que indica a substituição da parte pelo todo. Portanto, quando o eu lírico alude ao laço de fita “Nos negros cabelos da moça bonita”, ele está se referindo, na verdade, à moça.


Por: Warley Souza