Aliteração
Aliteração é uma figura de linguagem que consiste na repetição de uma mesma consoante em texto literário. O uso de tal recurso em texto não literário é um vício de linguagem.
Por Warley Souza
Aliteração é uma figura de som ou de harmonia que consiste na repetição de um mesmo som consonantal de forma a produzir um efeito sonoro. É típica de textos literários como poema e letra de música. Em textos não literários, tal repetição é considerada um vício de linguagem chamado “colisão”.
Resumo sobre aliteração
- A aliteração é uma figura de linguagem, mais especificamente uma figura de som ou de harmonia.
- A aliteração consiste na repetição, em texto literário, da mesma consoante: “Vozes veladas, veludosas vozes.”.
- A assonância consiste na repetição, em texto literário, da mesma vogal: “Soluços ao luar, choros ao vento...”.
- Sabemos que a repetição de som consonantal é aliteração se ela ocorrer em texto literário e produzir efeito sonoro sugestivo.
- A assonância também é uma figura de linguagem, mais especificamente uma figura de som ou harmonia.
O que é aliteração?
A aliteração é uma figura de linguagem, também conhecida como figura de som ou de harmonia, que consiste na repetição de consoantes (mesmo som consonantal) de forma a produzir certa sonoridade no texto. Porém, essa figura de linguagem é um recurso utilizado em textos de caráter poético.
Figuras de linguagem permitem que o texto extrapole o sentido literal ou original de forma a apresentar novos sentidos. Como a aliteração é uma figura de som, a sonoridade é usada para despertar sensações. Portanto, intensifica a expressividade do texto. Para você entender o que estou falando, proponho que leia a próxima estrofe em voz alta:
Vozes veladas, veludosas vozes,
Volúpias dos violões, vozes veladas,
Vagam nos velhos vórtices velozes
Dos ventos, vivas, vãs, vulcanizadas.
Essa estrofe do poeta brasileiro Cruz e Sousa faz parte de seu poema “Violões que choram...”. Ao ler em voz alta, a repetição da consoante “v” provoca em mim a sensação de que alguém está sussurrando ou de que ouço o vento. E isso me deixa melancólico e triste. Ainda mais se leio a estrofe anterior, que diz:
E sons soturnos, suspiradas mágoas,
Mágoas amargas e melancolias,
No sussurro monótono das águas,
Noturnamente, entre ramagens frias.
O Simbolismo é um estilo de época que utiliza bastante a aliteração, pois os autores simbolistas buscam provocar sensações em quem lê ou ouve seus textos. Nosso maior poeta simbolista é Cruz e Sousa. Portanto, no próximo tópico, vou transcrever dois poemas desse escritor, nos quais se percebe a aliteração. Vamos lá?
Exemplos de aliteração
Note que no poema Após o noivado, de Cruz e Sousa, os sons de “v”, de “z”, de “l”, de “b”, de “p” e de “r” são repetidos, de forma que o poema fica musical. Porém, para você perceber, é preciso ler em voz alta:
Em flácido divã ela resvala
Na alcova — bem feliz, alegremente,
E o fresco penteador alvinitente,
De nardo e benjoim o aroma exala.
E o noivo todo amor, assim lhe fala,
Por entre vibrações do olhar ardente:
Pertences-me afinal, pomba dormente,
Parece que a razão de gozo, estala.
Mas eis — corre-se então nívea cortina:
E a plácida, a ideal, a branca lua
Derrama nos vergéis a luz divina...
Depois... Oh! Musa audaz, ousada, e nua,
Não rompas esse véu de gaze fina
Que encerra um madrigal — Vamos... recua!...
As vogais da língua portuguesa são “a”, “e”, “i”, “o” e “u”. Todas as outras letras são consideradas consoantes. Nesse soneto de Cruz e Sousa, há repetição:
- da consoante “v”: “divã”, “resvala”, “alcova”, “alvinitente”, “noivo”, “vibrações”, “nívea”, “vergéis”, “divina”, “véu”, “vamos”;
- da consoante “l”: “flácido”, “ela”, “resvala”, “feliz”, “alegremente”, “exala”, “fala”, “estala”, “plácida”, “lua”, “luz”;
- do som consonantal de “z” (às vezes representado por “s” ou por “x”): “resvala”, “feliz”, “fresco”, “exala”, “pertences”, “razão”, “gozo”, “estala”, “mas”, “eis”, “nos”, “vergéis”, “luz”, “depois”, “musa”, “audaz”, “ousada”, “rompas”, “gaze”, “vamos”;
- dos sons consonantais de “b” e “p”, que são semelhantes: “bem”, “penteador”, “benjoim”, “vibrações”, “pertences”, “pomba”, “parece”, “plácida”, “branca”, “rompas”;
- do som consonantal de “r” vibrante ou forte (“rr”): “resvala”, “alegremente”, “fresco”, “penteador”, “nardo”, “aroma”, “amor”, “por”, “entre”, “vibrações”, “olhar”, “ardente”, “pertences”, “dormente”, “parece”, “razão”, “corre”, “cortina”, “branca”, “derrama”, “vergéis”, “rompas”, “encerra”, “madrigal”, “recua”.
Agora, veja as aliterações do poema Dormindo..., em que os sons de “p”, “b”, “s”, “c” e “r” são repetidos, de forma que o poema adquire forte sonoridade. Então, leia em voz alta:
Pálida, bela, escultural, clorótica
Sobre o divã suavíssimo deitada,
Ela lembrava — a pálpebra cerrada —
Uma ilusão esplêndida de ótica.
A peregrina carnação das formas,
— o sensual e límpido contorno,
Tinham esse quê de avérnico e de morno,
Davam a Zola as mais corretas normas!...
Ela dormia como a Vênus casta
E a negra coma aveludada e basta
Lhe resvalava sobre o doce flanco...
Enquanto o luar — pela janela aberta —
— como uma vaga exclamação — incerta —
Entrava a flux — cascateado — branco!!...
Nesse soneto de Cruz e Sousa, há repetição:
- das consoantes “p” e “b”, as quais possuem sonoridade semelhante: “pálida”, “bela”, “sobre”, “lembrava”, “pálpebra”, “esplêndida”, “peregrina”, “límpido”, “basta”, “pela”, “aberta”, “branco”;
- do som consonantal de “z” ou “s”: “escultural”, “sobre”, “suavíssimo”, “cerrada”, “esplêndida”, “carnação”, “formas”, “sensual”, “esse”, “Zola”, “as”, “mais”, “corretas”, “normas”, “Vênus”, “casta”, “basta”, “resvalava”, “doce”, “exclamação”, “incerta”, “cascateado”;
- do som consonantal de “c” (som de “k”): “escultural”, “clorótica”, “ótica”, “carnação”, “contorno”, “quê”, “avérnico”, “corretas”, “como”, “casta”, “coma”, “flanco”, “enquanto”, “exclamação”, “cascateado”, “branco”;
- do som consonantal de “r” vibrante ou forte (“rr”): “escultural”, “clorótica”, “sobre”, “lembrava”, “pálpebra”, “cerrada”, “peregrina”, “carnação”, “formas”, “contorno”, “avérnico”, “morno”, “corretas”, “normas”, “dormia”, “negra”, “resvalava”, “luar”, “aberta”, “incerta”, “entrava”, “branco”.
Por fim, vou colocar abaixo, alguns exemplos de trava-línguas, gênero textual de caráter oral e lúdico (recreativo). Nesse gênero de texto, ocorre a presença de aliterações:
“O rato roeu a roupa do rei de Roma.”
“Três pratos de trigo para três tigres tristes.”
“O tempo perguntou para o tempo quanto tempo o tempo tem.”
“O pelo do peito do pé do Pedro é preto.”
“Luiza lustrava o lustre listrado; o lustre lustrado luzia.”
“Bote a bota no bote e tire o pote do bote.”
“O que é que Cacá quer? Cacá quer caqui. Qual caqui que Cacá quer? Cacá quer qualquer caqui.”
“Sabia que a mãe do sabiá não sabia que o sabiá sabia assobiar?”
“Atrás da pia tem um prato, um pinto e um gato. Pinga a pia, apara o prato, pia o pinto e mia o gato.”
“Um ninho de mafagafos tinha sete mafagafinhos. Quem desmafagar esses mafagafinhos bom desmagafigador será.”
“Uma trinca de trancas trancou Tancredo.”
“O frasco francês está fresco e frio.”
Como saber se é aliteração?
Em primeiro lugar, você precisa saber que a aliteração é a repetição do mesmo som consonantal, ou de sons consonantais semelhantes. Por que estou dizendo “som consonantal” em vez de “consoante”? É porque às vezes uma consoante representa sons diferentes. Por exemplo, o som de “c” em “casa” é diferente do som em “cela”.
Em segundo lugar, a aliteração ocorre em textos artísticos ou literários. Isso quer dizer que você vai encontrar essa figura de linguagem em poemas, em letras de música ou mesmo em trava-línguas. Afinal, o trava-línguas, pelo seu caráter lúdico, oral e folclórico, apresenta caráter literário e recreativo.
Não ocorre aliteração em qualquer gênero de texto. Ela não vai aparecer em receita culinária, em bula de remédio, em relatório, em abaixo-assinado, em manual de instrução, em curriculum vitae etc. Isso porque, repito, ela é típica de textos literários. Se você perceber a repetição de consoantes em frases de um relatório, por exemplo, quem escreveu tal relatório praticou um vício de linguagem.
A colisão é um vício de linguagem (considerado um “defeito” pela gramática normativa) que consiste na repetição, em uma frase, de consoantes iguais ou semelhantes, como, por exemplo, em: “O ladrão levou o lavabo depois de lavar as mãos.”. Assim, em textos não literários, a repetição consonantal é um vício de linguagem e não uma figura de linguagem.
Por fim, para ter certeza de que ocorre aliteração em um texto literário, você precisa ler tal texto em voz alta. Afinal, a aliteração é uma figura de som, pois ela produz um efeito sonoro. Só assim você pode ter certeza de que o texto apresenta aliteração.
Portanto, você vai saber que há aliteração se:
- o texto for literário;
- o texto apresentar repetição de som consonantal;
- o texto produzir um efeito sonoro ao ser lido em voz alta.
Então, retomo a famosa estrofe de Cruz e Sousa:
Vozes veladas, veludosas vozes,
Volúpias dos violões, vozes veladas,
Vagam nos velhos vórtices velozes
Dos ventos, vivas, vãs, vulcanizadas.
- É um texto literário?
- O texto apresenta repetição de som consonantal?
- O texto produz efeito sonoro?
Sim para todas as perguntas. Portanto, não há dúvida que a repetição de “v” nesse texto é aliteração. Aliás, não há uma quantidade mínima ou máxima de repetições. A repetição das consoantes deve produzir efeito sonoro, o qual pode ser intenso (como no exemplo) ou mais suave.
Quais as diferenças entre aliteração e assonância?
A aliteração é uma figura de linguagem. A assonância também. A aliteração é uma figura de som ou harmonia. A assonância também. A aliteração ocorre em textos literários. A assonância também. A diferença entre aliteração e assonância é que aliteração é a repetição do som de uma mesma consoante, enquanto a assonância é repetição do som de uma mesma vogal.
E se houver assonância em texto não literário? Aí não é assonância, pois esse tipo de ocorrência é um vício de linguagem chamado hiato. Isso ocorre quando, em texto não literário, repetimos uma mesma vogal de forma a produzir um som desagradável, já que o texto não literário é direto e não deve produzir efeitos sonoros para distrair quem o lê.
Veja mais uma estrofe do poema Violões que choram, de Cruz e Sousa:
Ah! plangentes violões dormentes, mornos,
Soluços ao luar, choros ao vento...
Tristes perfis, os mais vagos contornos,
Bocas murmurejantes de lamento.
Você percebeu como a repetição de “o”, seja com som de “ô”, seja com som de “u”, produz um efeito sonoro? É um ôooo... uuuuu... Como é uma poesia, quem ouve pode experimentar alguma sensação ou emoção sugerida pelo som. Eu sinto tristeza.
Agora imagine que, no meio de uma receita de bolo, você lê: “Os oito ovos postos no bolo o tornam fofo ao sair do forno”. O som repetido de “o” provoca um efeito sonoro desnecessário (hiato), pois o gênero receita não é recreativo, é um texto funcional que deve ser claro. A sonoridade desagradável acaba tirando a sua atenção do que realmente importa, ou seja, fazer o bolo.
Confira também: Assonância — mais detalhes sobre essa figura de som ou de harmonia que se caracteriza pela repetição de vogais
Exercícios resolvidos sobre aliteração
Questão 1
(Fuvest)
Vestindo água, só saído o cimo do pescoço, o burrinho tinha de se enqueixar para o alto, a salvar também de fora o focinho. Uma peitada. Outro tacar de patas. Chu-áa! Chu-áa... — ruge o rio, como chuva deitada no chão. Nenhuma pressa! Outra remada, vagarosa. No fim de tudo, tem o pátio, com os cochos, muito milho, na Fazenda; e depois o pasto: sombra, capim e sossego... Nenhuma pressa. Aqui, por ora, este poço doido, que barulha como um fogo, e faz medo, não é novo: tudo é ruim e uma só coisa, no caminho: como os homens e os seus modos, costumeira confusão. É só fechar os olhos. Como sempre. Outra passada, na massa fria. E ir sem afã, à voga surda, amigo da água, bem com o escuro, filho do fundo, poupando forças para o fim. Nada mais, nada de graça; nem um arranco, fora de hora. Assim.
João Guimarães Rosa. O burrinho pedrês, Sagarana.
Como exemplos da expressividade sonora presente neste excerto, podemos citar a onomatopeia, em “Chu-áa! Chu-áa...”, e a fusão de onomatopeia com aliteração, em
A) “vestindo água”.
B) “ruge o rio”.
C) “poço doido”.
D) “filho do fundo”.
E) “fora de hora”.
Resolução:
Alternativa B.
Em “ruge o rio”, há a repetição da consoante “r”. Já o caráter onomatopeico reside na imitação do som do rio. É como se o rio fizesse este barulho: “rugiurio...”.
Questão 2
(Ufam) Leia os versos abaixo, da autoria do poeta simbolista brasileiro Cruz e Sousa (1861-1898):
Vozes veladas, veludosas vozes,
Volúpias dos violões, vozes veladas
Vagam nos velhos vórtices velozes
Dos ventos, vivas, vãs, vulcanizadas.
Neles, a figura de linguagem predominante é a:
A) assonância.
B) paronomásia.
C) hipérbole.
D) aliteração.
E) onomatopeia.
Resolução:
Alternativa D.
Apesar de o texto apresentar assonância ao repetir a vogal “o”, a repetição da consoante “v” é mais acentuada e frequente, e, por isso, chama mais a atenção.
Fontes
CEGALLA, Domingos Paschoal. Novíssima gramática da língua portuguesa. 49. ed. São Paulo: Companhia Editora Nacional, 2020.
CRUZ E SOUSA. Obra completa: poesia. Organização de Lauro Junkes. Jaraguá do Sul: Avenida; 2008.
SACCONI, Luiz Antonio. Nossa gramática: teoria e prática. 26. ed. São Paulo: Atual Editora, 2001.
VECHI, Tiago. 110 trava-línguas. Disponível em: https://brasilescola.uol.com.br/portugues/110-trava-linguas.htm.
YOUSSEF, Antônio Nicolau (org.). Acelere o saber: linguagens. São Paulo: Órbita, 2023.