Período composto por subordinação
O período composto por subordinação é formado por uma oração principal e uma oração subordinada. As orações subordinadas são substantivas, adjetivas ou adverbiais.
Por Warley Souza
Período composto por subordinação é aquele formado por uma oração principal e uma oração subordinada à principal. As orações subordinadas podem ser substantivas, adjetivas ou adverbiais. As orações subordinadas substantivas são subjetivas, completivas nominais, objetivas diretas, objetivas indiretas, predicativas ou apositivas.
Já as orações subordinadas adjetivas são restritivas ou explicativas apenas. Por fim, as orações subordinadas adverbiais indicam diversas circunstâncias e, portanto, podem ser causais, comparativas, concessivas, condicionais, conformativas, consecutivas, finais, proporcionais ou temporais.
Leia também: Como identificar um período composto por coordenação?
Resumo sobre período composto por subordinação
- O período composto por subordinação é formado por uma oração principal e uma oração subordinada à principal.
- As orações subordinadas podem ser substantivas, adjetivas ou adverbiais.
- Uma oração subordinada substantiva pode ser: subjetiva, objetiva indireta, completiva nominal, predicativa, objetiva direta ou apositiva.
- As orações subordinadas adjetivas podem ser restritivas ou explicativas.
- As orações subordinadas adverbiais podem ser dos tipos: causal, consecutiva, comparativa, final, concessiva, proporcional, condicional, temporal ou conformativa.
O que é o período composto por subordinação?
O período composto por subordinação é aquele que possui uma oração principal, além de uma oração subordinada à principal. A oração subordinada completa o sentido da oração principal.
Veja este exemplo:
Júnia decidiu que vai vender a casa!
No exemplo acima, a oração principal é “Júnia decidiu”. A oração subordinada é “que vai vender a casa”, pois ela completa o sentido da oração principal.
Sabemos que a oração é uma frase com verbo. Portanto, para ser composto, o período deve ter duas ou mais orações. O período começa com letra maiúscula e termina com um ponto-final, ponto de exclamação, ponto de interrogação e, em alguns casos, com reticências. Para ficar mais claro, observe as os exemplos:
A neve, que caiu ontem, é atípica.
Gustavo tinha medo de que seu irmão fizesse uma loucura...
Cada um desses períodos inicia com letra maiúscula. Todos apresentam mais de uma oração, e ambos são períodos compostos por subordinação.
No primeiro,
A neve, que caiu ontem, é atípica.
Temos a oração principal “A neve é atípica” e uma oração subordinada a ela, “que caiu ontem”, que explica qual neve.
No segundo exemplo,
Gustavo tinha medo de que seu irmão fizesse uma loucura...
A oração principal é “Gustavo tinha medo”. A oração subordinada “de que seu irmão fizesse uma loucura” completa o sentido da oração principal. Portanto, para identificar o período composto por subordinação, busque sempre uma oração principal e uma oração subordinada, isto é, uma oração que depende da oração principal para existir.
Veja também: Conjunções subordinativas e seu papel nas orações subordinadas
Exemplos de período composto por subordinação
- É importante que você manifeste opiniões racionais.
- Eu acho que meu gato é sonâmbulo.
- Ela se esqueceu de que a maldade existe.
- Alonso teve a impressão de que a terra tremia.
- A verdade é que sabemos pouco sobre o universo.
- Algo me intrigava: a obra não tinha autoria.
- Vi aquela mulher que me ofendera.
- Os elefantes, que têm ótima memória, não nos esquecem jamais.
- Não tinha insônia porque combatia a ansiedade diária.
- Vivia como se fosse morrer hoje.
- Mesmo que se esforçasse, não podia vencer os privilégios.
- Contanto que me ame, não me importo com nada.
- Tudo aconteceu como você planejou.
- Vânia gritou muito no show, de modo que perdeu a voz.
- Vilson trabalhava muito a fim de pagar os estudos do filho.
- Quanto mais sofria, mais amargo ficava.
- Sempre que se lembrar de mim, eu estarei com você.
- O bolo que estava aqui custou muito caro.
- A humanidade, que desdenha da razão, caminha para o fim.
- A pessoa que bebe muita água é mais saudável.
Classificação das orações subordinadas
As orações subordinadas exercem uma função sintática que complementa o sentido da oração principal, sendo classificadas como: substantivas, adjetivas ou adverbiais. Vejamos cada uma delas:
→ Oração subordinada substantiva
As orações subordinadas substantivas atuam como sujeito, complemento nominal, objeto direto, objeto indireto, predicativo ou aposto. Por isso, são assim classificadas:
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Oração subordinada substantiva subjetiva
Uma das definições de sujeito é: o elemento sobre o qual se declara alguma coisa. Assim, quando uma oração cumpre o papel de sujeito em relação à oração principal, ela é subjetiva.
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oração principal + oração subordinada substantiva subjetiva [função de sujeito] |
Veja:
É necessário que os pratos fiquem limpíssimos.
Há duas orações nesse período (portanto, dois verbos):
- É necessário
- que os pratos fiquem limpíssimos
A oração subordinada substantiva subjetiva é “que os pratos fiquem limpíssimos”. Podemos substituir essa oração por “isso”, dessa forma:
Isso é necessário.
O que se declara sobre “isso”? O período diz que isso é necessário. Portanto, “isso”, ou melhor, a oração “que os pratos fiquem limpíssimos” tem função de sujeito:
Que os pratos fiquem limpíssimos é necessário.
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Oração subordinada substantiva completiva nominal
Você sabe o que é um complemento nominal? Como a própria expressão sugere, ele é o elemento que completa o sentido de um nome. Segundo a gramática normativa, os nomes são: substantivo, adjetivo e advérbio. Portanto, as orações subordinadas substantivas completivas nominais exercem a função de complemento de nomes.
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oração principal + oração subordinada substantiva completiva nominal [função de complemento nominal] |
Observe os períodos abaixo.
Exemplo 1:
Núbia tem consciência de que a irmã está errada.
A oração principal é: “Núbia tem consciência”. A palavra “consciência” é um substantivo, de forma que a oração subordinada substantiva completiva nominal “de que a irmã está errada” completa o sentido do substantivo “consciência”, o qual está presente na oração principal.
Exemplo 2:
Todos estávamos seguros de que ele aprenderia com os erros.
No segundo enunciado, a oração principal é “todos estávamos seguros”, sendo que o adjetivo “seguros” tem seu sentido completado pela oração subordinada substantiva completiva nominal “de que ele aprenderia com os erros”.
Exemplo 3:
Eu estava perto de onde você me esperava.
Por fim, a oração principal do terceiro período é: “Eu estava perto”. A palavra “perto” é advérbio, pois expressa circunstância de lugar. O sentido desse advérbio é completado pela oração subordinada substantiva completiva nominal “de onde você me esperava”.
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Oração subordinada substantiva objetiva direta
O objeto direto é um complemento verbal, pois ele completa o sentido de um verbo. Quando a oração exerce função de objeto direto, nós a chamamos de oração subordinada substantiva objetiva direta. Mas tem um detalhe, o objeto direto não apresenta preposição.
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oração principal + oração subordinada substantiva objetiva direta [função de objeto direto - sem preposição] |
Exemplo:
Eu falei que não quero isso.
Nesse período, a oração principal é “eu falei”. Perceba que a oração subordinada substantiva objetiva direta “que não quero isso” completa o sentido do verbo “falei”, o qual faz parte da oração principal.
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Oração subordinada substantiva objetiva indireta
O objeto indireto também é um complemento verbal, pois ele completa o sentido de um verbo. Porém, o objeto indireto apresenta preposição. Quando a oração exerce função de objeto indireto, nós a chamamos de oração subordinada substantiva objetiva indireta.
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oração principal + oração subordinada substantiva objetiva indireta [função de objeto indireto - com preposição] |
Exemplo:
Lúcio referiu-se a quem estava covardemente em silêncio.
Note que a oração subordinada substantiva objetiva indireta “a quem estava covardemente em silêncio” completa o sentido da oração principal “Lúcio referiu-se”. Ela é iniciada com a preposição “a”, pois quem se refere, refere-se a algo ou a alguém.
Vale lembrar: as principais preposições são: a, ante, após, até, com, contra, de, desde, em, entre, para, perante, por, sem, sob, sobre, trás.
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Oração subordinada substantiva predicativa
Você sabe o que é um predicativo? O predicativo é o elemento que qualifica o sujeito ou objeto. Por exemplo, se digo “O homem está feliz”, “feliz” qualifica o sujeito “o homem”. E se digo “O homem considerou o trabalho difícil”, “difícil” qualifica o objeto direto “o trabalho”. Assim, quando uma oração exerce função de predicativo do sujeito, ela é chamada de oração subordinada substantiva predicativa:
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oração principal + oração subordinada substantiva predicativa [função de predicativo do sujeito] |
Exemplo:
O certo é que sua omissão terá uma consequência.
Nesse período a oração principal tem como sujeito “o certo”. Portanto, “que sua omissão terá uma consequência” é uma oração subordinada substantiva predicativa. Para ilustrar e simplificar, farei esta substituição:
O certo é isto.
Assim, temos a seguinte estrutura na oração:
sujeito “o certo” + verbo de ligação “é” + predicativo do sujeito “isto”
Ao substituirmos “isto” por uma oração, tal oração exerce função de predicativo do sujeito.
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Oração subordinada substantiva apositiva
Uma das funções do aposto é esclarecer algum termo da oração. Portanto, quando uma oração esclarece um termo da oração principal, ela é chamada de oração subordinada substantiva apositiva:
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oração principal + oração subordinada substantiva apositiva [função de aposto] |
Exemplo:
Havia uma notícia no mural, ou seja: as equipes foram desclassificadas.
Nesse exemplo, a oração principal é “havia uma notícia no mural”. Assim, a oração subordinada esclarece que notícia é essa: “as equipes foram desclassificadas”.
→ Oração subordinada adjetiva
As orações subordinadas adjetivas atuam como adjunto adnominal, já que qualificam, especificam ou acompanham um elemento da oração principal. Elas são assim classificadas:
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Oração subordinada adjetiva restritiva
Apresenta uma informação restrita, específica, sobre um substantivo. Por isso, não pode ser antecedida por vírgula:
As frutas que estavam aqui custaram caro.
Note que a oração subordinada adjetiva restritiva “que estavam aqui” especifica quais são as frutas. A oração principal é: “As frutas custaram caro”.
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Oração subordinada adjetiva explicativa
Apresenta uma informação genérica. Em função disso, deve estar entre vírgulas. Como não é algo especificador, ela é acessória. Isso quer dizer que não é essencial no período:
As frutas, que alimentam nosso corpo, custaram caro.
Observe que a oração subordinada adjetiva explicativa “que alimentam nosso corpo” não é uma informação indispensável. Dessa forma, o período pode ser composto apenas pela oração principal: “As frutas custaram caro”.
→ Oração subordinada adverbial
As orações subordinadas adverbiais atuam como adjunto adverbial, já que apontam uma circunstância relacionada à oração principal. Portanto, são assim classificadas:
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Oração subordinada adverbial causal
Expressa uma causa:
Maria não foi à escola porque nevou.
Note que nevar é a causa de Maria não ir à escola. Portanto, o ato de nevar tem como consequência a ausência de Maria na escola.
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Oração subordinada adverbial comparativa
Expressa uma comparação:
Minha filha é mais estudiosa do que eu era na sua idade.
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Oração subordinada adverbial concessiva
Aponta uma concessão, ou seja, algo que podia impedir o fato expresso na oração principal, mas não impede:
Embora ela tivesse medo, enfrentou os obstáculos.
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Oração subordinada adverbial condicional
Aponta uma condição:
Se você fizer a tarefa, poderá comer pudim.
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Oração subordinada adverbial conformativa
Indica conformidade, isto é, o acontecimento da oração principal ocorre “de acordo com” o que é expresso na oração subordinada:
Fizemos o trabalho conforme a professora nos orientou.
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Oração subordinada adverbial consecutiva
Indica uma consequência:
Sílvia foi reprimida por tanto tempo que não consegue tomar decisões sozinha.
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Oração subordinada adverbial final
Expressa uma finalidade:
Lívia economizou para que pudesse comprar um apartamento.
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Oração subordinada adverbial proporcional
Expressa uma proporção:
À medida que a noite avançava, o silêncio crescia.
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Oração subordinada adverbial temporal
Indica o momento, o tempo em que ocorre o fato da oração principal:
Enquanto a filha dormia, Breno limpava a casa.
Abaixo, veja um quadro com o resumo da classificação das orações subordinadas.
→ Videoaula sobre orações subordinadas
Exercícios resolvidos sobre período composto por subordinação
Questão 1 (Unimontes)
O instinto animal
Alguns traduzem por “instinto animal” o que o economista inglês John Maynard Keynes na década de 30 descreveu como “animal spirit”, isto é, espírito animal. A tradução do termo original não importa muito, importa o que significa, e significa várias coisas: o gosto ou a capacidade pelo risco ao investir, por exemplo, quando se fala em empresários e economia. Neste artigo tomo a expressão como nossa capacidade geral de sentir, pressentir algo, e agir conforme. Isso se refere não só a indivíduos, mas a grupos, instituições, estados, governos. Sendo intuição e audácia, ele melhora se misturado com alguma prudência e sabedoria, para que o bolo não desande.
[...]
Precisamos medir nossas palavras: cuidar do que dizemos, do que escrevemos, e também do que pensamos e não dizemos. Podem acusar quanto quiserem os empresários, os louros de olhos azuis, as elites, os ricos, os intelectuais, não importa: mas não acusem de querer o mal da nação aqueles que batalham pela mera sobrevivência ou por uma vida melhor, num orçamento que tenha a educação como prioridade. Pois não é certo que da treva sempre nasce a luz: dela brotam como flores fatídicas o sofrimento, a miséria, a subserviência. Na treva da ignorância nasce o atraso, de suas raízes se alimenta a pobreza em todos os sentidos, financeira, moral, intelectual. Uma educação bem cuidada e fomentada, com professores bem pagos, boas escolas desde a creche até a universidade, com orientação sadia e não ideológica, mas realmente cultural, aberta ao mundo e não isolacionista, grande e não rasa, promove crescimento, nos insere no chamado concerto das nações, e nos torna respeitados — nos faz incluídos, consultados, procurados. Dirão
que continuo repetitiva com esse tema: sou, e serei, porque acredito nisso. Precisamos ter cuidados pelos que nos governam: se nas relações pessoais amar é cuidar, na vida do país cuidar é nutrir não só o corpo e fortalecer condições materiais de vida, mas iluminar a mente. Para que a gente possa ter esperanças fundamentadas, emprego digno, salário compensador, morando e trabalhando num ambiente saudável, aprendendo a administrar nossos ganhos, poucos ou abundantes. Para não estarmos entre os últimos nas listas de povos mais ou menos educados e saudáveis, mas plenamente inseridos no mundo civilizado.
Parece utopia, aceito isso. Mas batalharei, com muitos outros, para que ela se transforme na nossa mais fundamental realidade: simples assim.
LUFT, Lya. O instinto animal. Revista Veja, São Paulo, p. 2, julho de 2012.
Assinale o contexto em que a palavra “se” foi usada com valor semântico de condição, introduzindo, pois, uma oração subordinada adverbial condicional.
A) “Sendo intuição e audácia, ele melhora se misturado com alguma prudência e sabedoria, para que o bolo não desande.”
B) “Na treva da ignorância nasce o atraso, de suas raízes se alimenta a pobreza em todos os sentidos...”
C) “Precisamos ter cuidados pelos que nos governam: se nas relações pessoais amar é cuidar, na vida do país cuidar é nutrir não só o corpo e fortalecer condições materiais de vida, mas iluminar a mente.”
D) “Parece utopia, aceito isso. Mas batalharei, com muitos outros, para que ela se transforme na nossa mais fundamental realidade: simples assim.”
Resolução: Alternativa A.
No período composto “Sendo intuição e audácia, ele melhora se misturado com alguma prudência e sabedoria, para que o bolo não desande”, a oração principal “ele melhora” tem subordinada a ela a oração “se misturado com alguma prudência e sabedoria”, a qual é uma oração subordinada adverbial condicional reduzida de particípio (o verbo “misturado” está no particípio). Nas alternativas B e D, o “se” é pronome reflexivo. Já na alternativa C, o “se” tem um uso raro, pois expressa proporção: “se nas relações pessoais amar é cuidar, na vida do país cuidar é nutrir [...]”, isto é: “[ao passo que] nas relações pessoais amar é cuidar, na vida do país cuidar é nutrir [...]”.
Questão 2 (Unimontes)
O profissionalismo como religião
(Cláudio de Moura Castro)
Logo que me mudei para a França, tive de levar meu carro para consertar. Ao buscá-lo, perguntei se havia ficado bom. O mecânico não entendeu. Na cabeça dele, se entregou a chave e a conta, nada mais a esclarecer sobre o conserto. Mais à frente, decidi atapetar um quartinho. O tapeceiro propôs uma solução que me pareceu complicada. Perguntei se não poderia, simplesmente, colar o tapete. O homem se empertigou: “O senhor pode colar, mas, como sou profissional, eu não posso fazer isso”. Pronunciou a palavra “profissional” com solenidade e demarcou um fosso entre o que permite a prática consagrada e o que lambões e pobres mortais como eu podem perpetrar.
[...]
Essa incursão na história das corporações serve para realçar que nem só de mercado vive o mundo atual. Aqueles países com forte tradição de profissionalismo disso se beneficiam vastamente. Nada de fiscalizar para ver se ficou bem feito. O fiscal severo e intransigente está de prontidão dentro do profissional. É pena que os sindicatos, herdeiros das corporações, pouco se ocupem hoje de qualidade e virtuosismo. Se pagarmos com magnanimidade, o verdadeiro profissional executará a obra com perfeição. Se pagarmos miseravelmente, ele a executará com igual perfeição. É assim, ele só sabe fazer bem, pois incorporou a ideologia da perfeição. Não apenas não sabe fazer de qualquer jeito, mas sua felicidade se constrói na busca da excelência. Sociedades sem tradição de profissionalismo precisam de exércitos de tomadores de conta (que terminam por subtrair do que poderia ser pago a um profissional com sua própria fiscalização interior). Nelas, capricho é uma religião com poucos seguidores. Sai bem feito quando alguém espreita. Sai matado quando ninguém está olhando.
Existe relação entre o que pagamos e a qualidade obtida. Mas não é só isso. O profissionalismo define padrões de conduta e excelência que não estão à venda. Verniz sem rugas traz felicidade a quem o aplicou. Juntas não têm gretas, mesmo em locais que não estão à vista. Ou seja, foram feitas para a paz interior do marceneiro e não para o cliente, incapaz de perceber diferenças. A lâmina do formão pode fazer a barba do seu dono. O lanterneiro fica feliz se ninguém reconhece que o carro foi batido. Onde entra uma chave de estria, não se usa chave aberta na porca. Alicate nela? Nem pensar! Essa tradição de qualidade nas profissões manuais é caudatária das corporações medievais. Mas sobrevive hoje, em maior ou menor grau, em todo o mundo do trabalho. O cirurgião quer fazer uma sutura perfeita. Para o advogado, há uma beleza indescritível em uma petição bem lavrada — que o cliente jamais notará. Quantas dezenas de vezes tive de retrabalhar os parágrafos deste ensaio?
[...]
Veja, 1/6/2011.
Em qual dos exemplos abaixo, “se” é uma conjunção integrante, encabeçando uma oração subordinada substantiva objetiva direta?
A) “Na cabeça dele, se entregou a chave e a conta, nada mais a esclarecer sobre o conserto.”
B) “Se pagarmos com magnanimidade, o verdadeiro profissional executará a obra com perfeição.”
C) “Perguntei se não poderia, simplesmente, colar o tapete.”
D) “O lanterneiro fica feliz se ninguém reconhece que o carro foi batido.”
Resolução: Alternativa C.
A oração “se não poderia, simplesmente, colar o tapete” exerce função de objeto direto da oração principal “perguntei”. Portanto, o “se” é conjunção integrante (que liga duas orações: a principal e a subordinada).
Fontes
CEGALLA, Domingos Paschoal. Novíssima gramática da língua portuguesa. 49. ed. São Paulo: Companhia Editora Nacional, 2020.
NICOLA, José de; INFANTE, Ulisses. Gramática contemporânea da língua portuguesa. 15. ed. São Paulo: Scipione, 1999.
SANTOS, Márcia Angélica dos. Aprenda análise sintática. 6. ed. São Paulo: Saraiva, 2003.
SACCONI, Luiz Antonio. Nossa gramática: teoria e prática. 26. ed. São Paulo: Atual Editora, 2001.