Antítese
Antítese é uma figura de linguagem que consiste no uso de palavras, expressões ou ideias opostas para destacar uma oposição em textos expressivos ou literários.
Por Warley Souza
Antítese é uma figura de pensamento que consiste na oposição entre palavras, expressões ou ideias, como, por exemplo: “Vida e morte completam-se”. É mais usada em textos literários ou artísticos, seja na prosa ou na poesia. Isso porque ela apresenta caráter conotativo, sugestivo ou plurissignificativo, de forma a intensificar a expressividade.
Uma figura de pensamento semelhante à antítese é o paradoxo. O enunciado é paradoxal quando ele apresenta uma contradição: “A minha liberdade é uma prisão”. No exemplo, a contradição está no fato de “liberdade” ser “prisão”, já que esses são dois conceitos opostos. Mas, em um texto literário, tal afirmação é passível de interpretação.
Leia também: Conotação e denotação — diferenças entre sentido real e sentido figurado
Resumo sobre antítese
-
A antítese é uma figura de linguagem, mais especificamente uma figura de pensamento.
-
A antítese consiste na oposição de palavras, expressões ou ideias: “Tudo que ela ganhou, muito cedo ela perdeu”.
-
A antítese serve para destacar uma oposição, a qual intensifica a expressividade de um enunciado.
-
O paradoxo também é uma figura de linguagem, mais especificamente uma figura de pensamento.
-
O paradoxo consiste na criação de uma contradição por meio da oposição de ideias: “Ter tanto dinheiro é aquilo que a empobrece”.
-
Antítese e paradoxo não são figuras excludentes.
-
Um enunciado pode ser antitético (apresentar oposição) e paradoxal (apresentar contradição) ao mesmo tempo.
O que é antítese?
A antítese é uma figura de linguagem. Ela também é conhecida como figura de pensamento. E consiste na relação entre palavras ou expressões com sentido oposto, de forma a criar um contraste. Por isso, é bastante utilizada em textos literários, já que dá mais expressividade ao texto.
As figuras de linguagem dão ao texto um sentido figurado, ou seja, expressam significados que vão além do sentido literal (original e único). Como a antítese é uma figura de pensamento, ela está relacionada à estrutura da frase, onde ocorre a aproximação entre antônimos, isto é, a aproximação entre ideias opostas.
Para você entender melhor, observe esta estrofe do soneto À cidade da Bahia, do poeta barroco Gregório de Matos:
Triste Bahia! ó quão dessemelhante
Estás e estou do nosso antigo estado!
Pobre te vejo a ti, tu a mi empenhado,
Rica te vi eu já, tu a mi abundante.
Note que o eu lírico (a voz poética) pretende marcar a oposição entre a Bahia do passado e a Bahia do presente (“rica” e “pobre”), além da oposição entre o eu lírico do passado e o eu lírico do presente (“abundante” e “empenhado”, endividado). Tal efeito também é conseguido pela oposição dos tempos verbais presente (“vejo”) e passado (“vi”).
O barroco é um estilo de época do século XVII, marcado pela oposição, pois os autores barrocos expressam o contraste de sua época, dividida entre o sagrado e o profano, entre a razão e a emoção. Nosso maior poeta barroco é o baiano Gregório de Matos.
Veja também: O que é uma ironia?
Lista de exemplos de antítese
-
Para quem é honesto, o indivíduo desonesto é desprezível.
-
Faço hoje aquilo que planejei ontem.
-
Todos almejam riqueza quando estão na pobreza.
-
Não tenho nada porque você me roubou tudo.
-
Fique com sua culpa, pois seus atos não têm desculpa.
-
Sei o que é bondade porque conheço a maldade.
-
Dizem que o mau marido não é um bom filho.
-
Valorizo a vida quando me aproximo mais da morte.
-
Uma pessoa sensível não dá as mãos a quem é insensível.
-
Falou bem dos amigos e mal dos inimigos.
-
Tinha altos padrões, mas baixos instintos.
-
Sobra preguiça quando falta ânimo.
-
Tudo que ela ganhou, muito cedo ela perdeu.
-
A porta do meu coração está aberta para o amor e fechada para o ódio.
-
Uma pessoa triste também pode ser alegre em alguns momentos.
-
Quando chega o dia, sinto imensa saudade da noite.
-
Érico faz um grande esforço para realizar um pequeno sonho.
-
A mãe tinha tanta coragem, enquanto ele era tomado pela covardia.
-
Alice acordava muito cedo e dormia muito tarde.
-
O novo é apenas a continuidade do velho.
Quais as diferenças entre antítese e paradoxo?
Tanto a antítese quanto o paradoxo (também chamado de “oximoro” ou “oxímoro”) são figuras de pensamento. A antítese é marcada pela oposição. Já o paradoxo é marcado pela contradição. A contradição é o ato de contradizer, isto é, dizer o contrário do que foi dito. E, ao fazer isso, quem enuncia a frase expressa uma incoerência ou um contrassenso.
Porém, o paradoxo, por ser uma figura de linguagem, é usado intencionalmente pela pessoa que expressa tal figura de pensamento. Portanto, se for usado em um texto não literário, que objetiva ser claro, seu uso não é aconselhável, já que perturba o entendimento.
Já nos textos literários, o paradoxo é um recurso estilístico, o qual torna o texto mais expressivo. A oposição típica da antítese pode estar presente no paradoxo. No entanto, a antítese não apresenta contradição. Por exemplo:
A mentira e a sinceridade são valorizadas.
Temos na frase a antítese expressa na oposição “mentira” e “sinceridade”.
No entanto, quando digo:
A mentira sincera deve ser valorizada.
a expressão “mentira sincera” expressa uma oposição, mas também uma contradição. Afinal, como a mentira pode ser sincera se a mentira é a falta de sinceridade? Mas como recurso estilístico, é possível entender que uma “mentira sincera” é uma mentira que é dita com boas intenções.
Dessa forma, a antítese apresenta apenas oposição. Já o paradoxo pode apresentar oposição e deve, obrigatoriamente, apresentar a contradição. Então, veja, a seguir, algumas frases contraditórias em que se percebe o paradoxo:
Seu medo corajoso salvou a todos nós.
Que triste felicidade senti naquele dia.
Aquela racional insanidade fascinava seus fãs.
Ter tanto dinheiro é aquilo que a empobrece.
Como o medo pode ser corajoso? Como a felicidade pode ser triste? Como a insanidade pode ser racional? Como ter tanto dinheiro pode empobrecer alguém? Para entender tais contradições utilizadas como recurso estilístico, é preciso interpretar cada uma delas. Pois a figura de linguagem permite a ampliação dos sentidos.
Assim, apesar do medo, alguém pode conseguir agir. A felicidade de uma pessoa pode significar a tristeza de alguém para ela importante. Uma insanidade planejada ou encenada pode ser considerada racional. Ter muito dinheiro pode tornar alguém pobre humanamente. Essas são possibilidades de leitura para os paradoxos mencionados.
Observe que antítese e paradoxo não são figuras excludentes. Quero dizer com isso que um enunciado pode ser antitético (apresentar oposição) e paradoxal (apresentar contradição) ao mesmo tempo. É o caso de “mentira sincera”, em que há oposição entre mentira e sinceridade, e contradição ao afirmar que uma mentira é sincera.
Para que serve a antítese?
A antítese serve para destacar uma oposição em textos expressivos ou literários. Ao evidenciar o contraste, quem enuncia a frase enfatiza a ideia expressa. Diante do contraste, a pessoa que lê é levada a fazer uma comparação entre as ideias opostas, perceber suas diferenças e interpretar a mensagem.
Se eu digo, por exemplo, que “Amor e Ódio estão sempre de mãos dadas”, quem recebe a minha mensagem é levado a refletir sobre dois sentimentos opostos, mas também sobre o que os uniria. Portanto, perceba que a antítese é mais do que apontar antônimos, já que os elementos opostos são usados para expressar algo mais do que a simples oposição.
Existe um verso do poeta Gregório de Matos que diz o seguinte:
“para os bons sou inferno, e para os maus paraíso”.
Note que a oposição é usada para expressar a ideia de que alguém ou algo, por ser mau, é um inferno, um suplício para quem é bom, e um paraíso, um deleite para aqueles que são maus como ele.
Diante dessa oposição, o eu lírico mostra que a ideia de bom e de mau depende do ponto de vista. Assim, uma mesma coisa é o inferno para uns e o paraíso para outros. Desse modo, a antítese foi usada para apontar algo mais do que simples antônimos, servindo, pelo seu caráter conotativo (sugestivo ou plurissignificativo), como recurso expressivo.
Saiba mais: Quais são as figuras de som?
Exercícios resolvidos sobre antítese
Questão 1
A antítese é uma figura de linguagem caracterizada pela oposição. Sabendo disso, analise os enunciados abaixo e assinale a alternativa que apresenta esse recurso estilístico.
A) Seu coração é uma pedra fria, dura, insensível, sem simpatia.
B) Juliana leu Clarice Lispector pela primeira vez e ficou fascinada.
C) Todos que desejam o fim da guerra anseiam pelo início da paz.
D) Não ajudou seu amigo, não pôde auxiliar seu eterno companheiro.
E) Riu um riso assustador antes de cuspir dez mil palavrões e ofensas.
Resolução: Alternativa C.
Na frase “Todos que desejam o fim da guerra anseiam pelo início da paz”, as palavras que possuem sentidos opostos são: “fim” e “início”, “guerra” e “paz”.
Questão 2
Soneto de fidelidade
De tudo, ao meu amor serei atento
Antes, e com tal zelo, e sempre, e tanto
Que mesmo em face do maior encanto
Dele se encante mais meu pensamento.
Quero vivê-lo em cada vão momento
E em louvor hei de espalhar meu canto
E rir meu riso e derramar meu pranto
Ao seu pesar ou seu contentamento.
E assim, quando mais tarde me procure
Quem sabe a morte, angústia de quem vive
Quem sabe a solidão, fim de quem ama
Eu possa me dizer do amor (que tive):
Que não seja imortal, posto que é chama
Mas que seja infinito enquanto dure.
Vinicius de Moraes.
VINICIUS. Poesia. Disponível em: https://www.viniciusdemoraes.com.br/br/poesia/texto/106/soneto-de-fidelidade.
Todos os versos destacados abaixo, do famoso soneto do poeta e compositor brasileiro Vinicius de Moraes, apresentam antítese, EXCETO:
A) “E rir meu riso e derramar meu pranto”.
B) “Ao seu pesar ou seu contentamento”.
C) “Quem sabe a morte, angústia de quem vive”.
D) “Quem sabe a solidão, fim de quem ama”.
Resolução: Alternativa D.
Oposições: “riso” e “pranto” (alternativa A), “pesar” e “contentamento” (alternativa B), “morte” e “quem vive” (alternativa C). Já “solidão” não se opõe a “quem ama”; afinal, o ato de amar não quer dizer que alguém está acompanhado.
Fontes
BECHARA, Evanildo. Moderna gramática portuguesa. 40. ed. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2024.
CEGALLA, Domingos Paschoal. Novíssima gramática da língua portuguesa. 49. ed. São Paulo: Companhia Editora Nacional, 2020.
CIPRO NETO, Pasquale; INFANTE, Ulisses. Gramática da língua portuguesa. 3. ed. São Paulo: Scipione, 2008.
MATOS, Gregório de. Poemas escolhidos. Seleção de José Miguel Wisnik. São Paulo: Companhia das Letras, 2010.
NICOLA, José de; INFANTE, Ulisses. Gramática contemporânea da língua portuguesa. 15. ed. São Paulo: Scipione, 1999.
SACCONI, Luiz Antonio. Nossa gramática: teoria e prática. 26. ed. São Paulo: Atual Editora, 2001.